"Quer seja p’ra depor o rei do Céu
Sendo a força o ideal, quer p’ra reaver
Um direito de lei, p’ra destroná-lo
Só esperando um lapso da presciência
Num ataque casual, sendo o Caos +arbitro:
Vã crença no primeiro atesta vão
O segundo. Que pouso haverá p’ra nós
No umbigo do Céu, se o dono supremo
Não vencermos? Suponham que ele afrouxa
E publica geral graça, sob jura
De nova sujeição; e nós, que cara
Seria a nossa lá, baixando olhos,
Catando à força estritas leis, louvando-o
No trono entre um chilreio de hinos, coros
De aleluias forçados, invejando-o
Ao sentar-se senhor supremo, de ara
Golfando odor de ambrósia, das ambrósias...
Nossa oferta servil. Esta a tarefa
No Céu, nosso deleite; que enfadonho
Eterno gasto em pagas de louvor
A quem se odeia. Não busquemos, pois,
Por força obstante, por licença obtida,
O inaceitável grau, no Céu embora,
De vassalagem esplêndida, mas antes
O nosso bem em nós, e de nós próprios
E vamos p’ra nós, mesmo em vasto ermo
Livres, sem dar conta a quem, amando
Árdua soltura mais que o suave jugo...
Té que avidez e orgulho me abateram
Em guerra no Céu contra o rei sem par.
Ah, porquê? Troco assim não merecia
De mim, a quem à luz da iminência
Deu o ser, e com seu bem a ninguém
Exprobrou. Nem custoso foi servi-lo,
Que outra coisa a fazer que não louvá-lo,
Recompensa normal, e dar-lhe graças,
Quão devidas! Mas todo o bem foi mal
Em mim, e só maldade fez. Tão alto
Erguido desdenhei da submissão,
E achei que um degrau mais me elevaria,
E a dívida quitei da gratidão
Sem fim, tão alto preço sempre pago,
Sempre a dever, esquecido do que dele
Sempre obtive...
Duas das mais distintas formas, altas
E erecta, como Deus, com honra indígena
Vestida em nudez real de tudo
Pareciam reis, e dignos, pois nos rostos
Divina a imagem, tinham do criador,
Verdade, sabedoria, santidade
Pura e grave, mas posta em liberdade
Filial; no homem daí a autoridade.
Mas um para sem par, tal como os seus sexos
Par e ímpar são; p'ra planos ele e arrojo,
P'ra dulçor ela e graça que cativa;
Ele por Deus só, ela por Deus nele:
(..) Em sujeição, rogada por bom mando,
Por ela entregue e nele mais aceite,
Entregue em submissão, brio modesto,
E em mora de amor doce e relutante.