sexta-feira, 6 de março de 2026

O Prazer de Ler

 

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Quase por acaso, passei por alguns dos meus trabalhos aquando da Licenciatura em Humanidades e gostei de reler um texto que fez parte de um deles para a cadeira "Teoria da Literatura". Gostei tanto que resolvi partilhar sem editar.

        "A literatura tem o poder de transformar o mundo dos que leem. Ler é mais do que aprofundar conhecimentos ou conhecer coisas diferentes. Ler é entrar em mundos diferentes e conhecer formas de estar e de sentir diferentes das nossas. Para que isso seja um facto na vida de cada leitor, é importante que os livros sejam lidos da primeira à última página; é importante que a vida de cada personagem se compare com a nossa e quanto mais diferente for de nós, mais nos enriquece; é necessário, se o livro não for um romance de personagem, que os espaços e os tempos nos cheguem em todo o esplendor da capacidade do seu autor. Mas para isso acontecer, é necessário ler. Nos vários graus de ensino escolares, a maior parte das obras são dadas a conhecer aos alunos, através de resumos ou de críticas a elas feitas. Uma crítica é importante para o entendimento da obra, se for feita pelo seu leitor, manifestando o que sente, o que desejou ler e não leu e até o que dispensava ter lido. Se não for assim, a crítica, é apenas o ponto de vista de alguém que leu, ou que em muitos casos, esteve em contacto com uma crítica anterior e se limitou a rebater ou a aceitar.

            Podemos, muitas vezes, ler e não concordar com a opinião do autor, com o ponto de vista ou com a forma como ele concluiu determinada obra. Mas se não lermos, os seus pensamentos, afetos, ódios ou desejos nunca chegarão até nós em primeira mão. E se isso não acontecer, a literatura não está a cumprir o seu papel de mudar o mundo (nem que seja apenas o nosso). Para que haja uma conexão com o mundo real, conforme Todorov nos diz, “é importante que a literatura seja o centro do processo educacional” (TODOROV, 2009:11). Se não for através dos programas escolares, a grande maioria dos jovens não vão nunca ter uma obra literária ao seu alcance. Com o desafio digital e virtual dos dias atuais, os livros são deixados em segundo ou terceiro plano ou até, em nenhum plano. Infelizmente, há jovens estudantes que nunca pegaram, para ler, num livro pelo simples prazer de ler. E ler deve ser, mais do que uma obrigação e uma forma de conhecer outros mundos, um prazer na vida, para a vida.

            Todorov diz-nos que a análise da estrutura ou composição de uma obra, “a nível de estilo, composição, formas narrativas, ou seja, a sua técnica literária” (ibidem 18) fez parte dos seus estudos e como ele, concordo que devem fazer parte do trabalho de um leitor, sim, mas apenas como meio auxiliar para entender o contexto social e até pessoal em que foi elaborada a obra. Até porque, com esses auxiliares chegaremos mais eficazmente ao âmago da questão: entender a obra no seu sentido psicológico conforme expresso pelo seu autor. E é esse entendimento que nos enriquecerá e nos fará apreciar o que lemos."

 Podemos adaptar esta ideia à leitura da Bíblia?

Atualmente, muita gente tem acesso à Bíblia e cada vez mais as redes sociais (Instagram, TikTok e afins) partilham pessoas com uma Bíblia na mão. A mostrar um unboxing de uma Bíblia nova e a partilhar os materiais que usam para marcar e escrever nas páginas da Bíblia. Em resumo, partilham o uso da Bíblia no seu dia a dia. E agora pergunto: Essa partilha é porque é moda ou trend, como se diz agora? É porque é bonito e digam o que disserem, a Bíblia como livro físico é maravilhosa? Ou, lê-se a Bíblia porque temos prazer de ler um livro onde Deus fala diretamente connosco? 

Aquela máxima de "A Bíblia é o único livro que quando lês estás na presença do Seu Autor" deveria er para nós uma verdade e deveria levar-nos a sentir prazer em escutar a Sua voz. Não é ouvir as opiniões de outros que leram, não é ouvir as críticas de alguns que nem leram. Isso não faz sentido e não nos enriquece em nada. 

Refaço uma das sentenças do texto acima: Ler a Bíblia deve ser, mais do que uma obrigação ou uma trend, deve ser uma forma de conhecer outras pessoas, outras histórias, contadas por Aquele que conhece o coração do homem, deve ser um prazer na vida, para a vida.

Recomendo!


Lições de Química

 

Elizabeth Zott não é uma mulher comum. Aliás, Elizabeth Zott seria a primeira a dizer que a mulher comum não existe. Mas estamos no início dos anos sessenta e a sua equipa de trabalho no Instituto de Pesquisa Hastings é exclusivamente masculina. Elizabeth pode ter sido uma das melhores alunas do curso de Química (foi), mas todos os colegas esperam que seja ela a ir buscar cafés ou fazer fotocópias (não será). Há, porém uma exceção: Calvin Evans, um jovem brilhante que se apaixona por ela. Entre eles, a química é a sério.

Mas tal como na ciência, a vida nem sempre segue uma linha reta. Anos mais tarde, Elizabeth é mãe solteira e a estrela relutante do programa de culinária mais amado da América, o Jantar às Seis. A sua abordagem à cozinha é extravagante ("combine uma colher de sopa de ácido acético com uma pitada de cloreto de sódio") e revolucionária (mais do que apresentar receitas, ela está a incentivar um número crescente de mulheres a desafiar o mundo). A sua popularidade irrita muita gente.

Longe dos holofotes, Elizabeth também usa a ciência para alimentar o corpo irrequieto e a mente subversiva da filha de quatro anos, Madeline, bem como o espírito crítico de Seis e Meia, o cão. Mas o seu destino parece eternamente adiado. Conseguirá ela cumprir o que em tempos um grande amor profetizou num sussurro?

Elizabeth Zott, ainda vais mudar o mundo.


Confesso que li este livro porque vi um trailer do filme adaptado em 2023 com o nome "Uma Questão de Química" e amei uma das partes apresentadas. Como defendo, um livro é sempre melhor do que um filme, optei por ler o livro em vez de ver o filme. A cena que me incentivou não existe no livro, mas não precisa, pois não se perde nada.

A narrativa não segue sempre uma ordem cronológica e tem pelo meio factos do passado de alguns dos personagens narrados como se estivessem a acontecer naquele preciso momento da narrativa. E estão de tal maneira bem "encaixados" na linha temporal que não nos perdemos na ordem da ação.

A personagem de Elizabeth estala como uma chicotada na mente dos anos sessenta, quando apenas se via a mulher como doméstica bem comportada e submissa. Elizabeth, mau grado os caminhos da vida e os rótulos que lhe põem por ser mãe solteira, é bem comportada mas não é nem doméstica e nem submissa. E luta pelos seus direitos da forma que pode, aproveitando oportunidades que nem sempre são as que desejava ou esperava.

Uma história interessante apresentada com uma narrativa muito fluída e os diálogos muito bem conseguidos fazem deste livro um "Recomendo"!


O Homem em Busca de um Sentido

 


Nos seus momentos de maior sofrimento, no campo de concentração, o jovem psicoterapeuta Viktor E. Frankl entregava-se à memória da sua mulher - que estava grávida e, tal como ele, condenada a Auschwitz. Conversava com ela, evocava a sua imagem, e assim se mantinha vivo. Quando finalmente foi libertado, no fim da guerra, a mulher estava morta, tal como os pais e o irmão. No entanto, ele alimentara-se de outro sonho enquanto estava preso, e, este sim, viria a realizar-se: projetava-se no futuro, via-se a falar perante um público imaginário, e a explicar o seu método para enfrentar o maior dos horrores. E sobreviver. Viktor E. Frankl sobreviveu. E até morrer, aos 92 anos, divulgou por todo o mundo o método desenvolvido no campo de concentração - a Logoterapia.

O psicoterapeuta descobriu que os sobreviventes eram aqueles que criavam para si próprios um objetivo, que encontravam um sentido futuro para a existência - fosse ele, por exemplo, cuidar de um filho ou escrever um livro. Em O Homem em Busca de um Sentido, escrito em 1946, o autor narra na primeira parte a sua dramática luta pela sobrevivência. E na segunda, em breves páginas, sintetiza os mais de 20 volumes ao longo dos quais desenvolveu o seu método - aplicável a qualquer pessoa, em qualquer circunstância da vida.

Nem sempre a psicologia resolve problemas, mas na maior parte das vezes consegue identificá-los e ao identificá-los pode dirigir as (re)ações daqueles que deles sofrem.

Podemos identificar 3 partes nesta narrativa. Na primeira parte, Frankl relata a sua experiência num campo de concentração nazi. Sem ter uma linha de "Era uma vez... e "Fim", conseguimos estabelecer uma cronologia desde a entrada no campo à saída, à medida que várias situações são descritas e à forma como são descritas; a segunda parte tem um pouco de ensaio clínico, onde os vários perfis psicológicos são apresentados, desde a forma como se manifestam à forma como os "doentes" podem lidar com eles, enfrentando-os, não os resolvendo; na terceira parte, que eu pessoalmente, acho muito mais interessante, há uma identificação do perfil, da razão para esse perfil e da forma como o problema pode e deve ser solucionado, porque se identificou a dada altura. Esse é o método de Frankl.

O Homem em Busca de um Sentido, conforme diz Frankl mais do que uma vez, de várias formas, é a luta de qualquer Homem, mas é a única razão para, alguns Homens, sobreviverem fisica e psicologicamente.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

A Montanha Mágica

 

«Tal como em A Morte em Veneza, o protagonista de A Montanha Mágica empreende uma viagem que acaba por o levar para fora do espaço e do tempo da existência burguesa. Não por acaso, contrariando planos anteriores em que o romance abria com a explanação da biografia de Hans, depois remetida para o segundo capítulo, o primeiro capítulo centra-se na viagem e no primeiro momento de confronto com o mundo fechado do sanatório, o início do longo percurso de iniciação que irá constituir o fulcro da narrativa. O herói do romance, como surge repetidamente sublinhado, nada tem de excepcional, pelo contrário, a própria mediania da personagem constitui uma forma de acentuar de que modo ela representa paradigmaticamente a normalidade social. O fulcro do romance, está, justamente, no facto de essa normalidade ser totalmente posta à prova e problematizada nos seus fundamentos pelo confronto com o microcosmo do sanatório.»

Entre tantas capas que este livro tem, escolhi esta para partilhar, porque me toca de certa forma.

"O caminhante sobre um mar de nuvens" de Caspar David Friedrich, foi uma das obras que tive de analisar na cadeira de Correntes Estéticas.

O parar do tempo, representado por alguém que pára a sua caminhada e observa o que não se pode ver. De olhos expostos nas nuvens que lhe tapam a vista do que há mais abaixo mais abaixo, percebe-se pela forma como está vestido que não é um caminhante habitual e que aquele momento foi um acaso.


As páginas que li, deste livro, parecem indicar uma situação semelhante num local e num tempo diferentes. Hasn Gastorp foi visitar o primo a um sanatário nos Alpes Suíços e o que era apenas um passeio, acabou por se tornar uma paragem em que se encontrou mais do que se esperava e, mesmo assim, não se encontrou tudo.

Este resumo, abaixo, explica porque penso assim e porque vejo semelhanças com o quadro de Friedrich.

"Às vezes apontado como um livro sem enredo, a obra trata da história de um jovem estudante de engenharia naval, alemão de Hamburgo, chamado Hans Castorp. Ele visita o primo Joachim Ziemssen num sanatório destinado ao tratamento de doenças respiratórias localizado em Davos, nos Alpes suíços, pouco antes do começo da Primeira Guerra Mundial. Apesar de ser encaminhado ao sanatório apenas para uma visita e para tratar uma anemia, Hans Castorp vai aos poucos mostrando sinais de que tem tuberculose pulmonar e acaba estendendo sua visita ao sanatório por meses e anos, pois sua saída é sempre adiada por causa da doença.

Nesse período, Castorp, pouco a pouco, afasta-se da vida "na planície" e conquista o que chama de liberdade da vida normal. Desliga-se do tempo, da carreira e da família e é atraído pela doença, pela introspecção e pela morte. Ao mesmo tempo, amadurece e trava contato mais profundo com a política, a arte, a cultura, a religião, a filosofia, a fragilidade humana (incluindo a morte e o suicídio), o caráter subjetivo do tempo (um dos temas mais importantes da obra) e o amor."

Desde há muito tempo que queria ler este livro, requisitei-o à Biblioteca, numa altura em que, por azar, tive pouco tempo para o ler, porque outras atividades e outras leituras eram prioritárias e tive de o devolver acabado o prazo do empréstimo, mesmo depois de o renovar uma vez. Mas ainda hei de ir requisitá-lo de novo, para finalmente o ler todo, um dia.

Neste momento, se eu tivesse um espaço na minha biblioteca chamado TBR (To be read "Para ser lido") este livro estaria lá.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

A Peste

 


Na manhã de um dia 16 de abril dos anos de 1940, o doutor Bernard Rieux sai do seu consultório e tropeça num rato morto. Este é o primeiro sinal de uma epidemia de peste que em breve toma conta de toda a cidade de Orão, na Argélia. Sujeita a quarentena, esta torna-se um território irrespirável e os seus habitantes são conduzidos até estados de sofrimento, de loucura, mas também de compaixão de proporções desmedidas.
Uma história arrebatadora sobre o horror, a sobrevivência e a resiliência do ser humano, "A Peste" é uma parábola de ressonância intemporal, um romance magistralmente construído, que, publicado originalmente em 1947, consagrou em definitivo Albert Camus como um dos autores fundamentais da literatura moderna.



Por conta do livro anterior, o primeiro que li deste autor, não resisti a ler este e provavelmente mais um, pelo menos, se seguirá.

Uma narrativa que nos prende, pela história que vivemos tão real, em alguns factos semelhante, noutros diferente, há pouco mais de cinco anos (e que continuamos a viver, embora, sem lhe dar tanta importância), e que se torna muito mais interessante de ler por ter sido escrita por quem foi. Albert Camus mais uma vez nos mostra toda a perícia de quem escreve de uma forma perfeita e complexa, que não nos deixa com dúvidas nem com ideias de "poderia ter sido mais" ou "falta aqui qualquer coisa", ou ainda "tanta conversa para nada" como vemos em algumas narrativas. Não é o caso. Tudo o que é escrito e a forma como é escrito completam o que se narra, para que possamos entender melhor o profundo de cada ação e de cada personagem.

O Avesso e o Direito

 


O Avesso e o Direito foi o primeiro livro publicado por Albert Camus, em 1937, em Argel, tinha então vinte e três anos. Só em 1958, mais de vinte anos passados, Camus aceitou ver o título reeditado. E ao reler este conjunto de ensaios da sua juventude descobriu neles a raiz dos temas que alimentaria toda a sua obra. Aqui se apresenta o mundo de pobreza, de pó e de luz da sua infância, aqui se reflete sobre a solidão e a indiferença, aqui se vê despontar a descoberta do absurdo da existência. Este é pois um texto basilar para o conhecimento de um dos grandes autores da literatura moderna, que nunca perdeu, nas suas palavras, «o apetite desordenado de viver».

Um conjunto de ensaios, com poucos "era uma vez" e nenhuns "viveram felizes para sempre". Não há um começo nas suas narrativas, mas também não lhes encontramos um fim. Lemos, absorvemos cada forma de escrever e mesmo que não nos identifiquemos com tudo o que escreve, não podemos ficar indiferentes à sua maneira brilhante e profunda de escrever. E aqueles que gostam de escrever, entre os quais alguns há que até acreditam que sabem escrever, concluimos que afinal somos limitados e não sabemos escrever nada.

Nota: Estas duas publicações, bem como uma mais que se seguirá de imediato estavam atrasadas. A aquecer  como em banho maria lentas e à espera. Calhou agora.

História de uma serva

 

Uma visão marcante da nossa sociedade radicalmente transformada por uma revolução teocrática. A História de Uma Serva tornou-se um dos livros mais influentes e mais lidos do nosso tempo.
Extremistas religiosos de direita derrubaram o governo norte-americano e queimaram a Constituição. A América é agora Gileade, um estado policial e fundamentalista onde as mulheres férteis, conhecidas como Servas, são obrigadas a conceber filhos para a elite estéril.
Defred é uma Serva na República de Gileade e acaba de ser transferida para a casa do enigmático Comandante e da sua ciumenta mulher. Pode ir uma vez por dia aos mercados, cujas tabuletas agora são imagens, porque as mulheres estão proibidas de ler. Tem de rezar para que o Comandante a engravide, já que, numa época de grande decréscimo do número de nascimentos, o valor de Defred reside na sua fertilidade, e o fracasso significa o exílio nas Colónias, perigosamente poluídas. Defred lembra-se de um tempo em que vivia com o marido e a filha e tinha um emprego, antes de perder tudo, incluindo o nome. Essas memórias misturam-se agora com ideias perigosas de rebelião e amor.

Vendo Raquel que não dava filhos a Jacó, teve ciúmes de sua irmã e disse a Jacó: Dá-me filhos, senão morrerei.Então, Jacó se irou contra Raquel e disse: Acaso, estou eu em lugar de Deus que ao teu ventre impediu frutificar?
Respondeu ela: Eis aqui Bila, minha serva; coabita com ela, para que dê à luz, e eu traga filhos ao meu colo, por meio dela.
Gênesis 30:2-3

Narrativas distópicas são sempre motivo de preocupação real quando nos apercebemos que apresentam um futuro, que pode, sim, acontecer brevemente. Ao longo da narrativa que nos conta sobre a vida de uma "serva", em que o presente da narrativa, em muitos dos capitulos, se intercala com um passado que não foi assim tão longinquo, vamos tomando consciencia, de uma forma assustadora, que aquele presente narrado não está muito longe de acontecer, seja em moldes semelhantes ou ligeiramente diferentes. 

Não posso deixar de partilhar uma opinião de um leitor que encontrei no site da Bertrand e que escreveu o que eu penso, mas de uma maneira brilhante.

"Margaret Atwood coloca-nos numa sociedade politica e religiosamente extremista, estruturada e devidamente estratificada, com denominação de cargos e respetiva função. A narradora é ativa, uma personagem que nos conta a sua história do ponto em que se encontra, com muitos retornos ao que era anteriormente e como ali chegou, sendo que este passado era a sociedade como a conhecemos. E é assustador perceber como políticas extremas e novas leis nos podem levar por caminhos inimagináveis, como podemos ficar condicionados e viver debaixo do medo, como pequenas e aparentemente inofensivas mudanças minam e derrubam a democracia, como tão facilmente se pode desvalorizar a vida, mesmo que em prol da vida em si. E mais assustador quando olhamos para o panorama atual e percebemos que são correntes extremistas destas que cada vez ganham mais poder e alcançam governos. Como a liberdade que se aparenta adquirida e pode ser tão mas tão frágil! Um livro profundamente reflexivo, obrigatório! Uma escrita fria, mecânica, por vezes delirante, desprovida de sentimentos... Tal como a realidade narrada."


segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Fahreinheit 451

 


Sabiam que Fahrenheit 451 é a temperatura a que arde o papel?


Guy Montag é um bombeiro. O seu emprego consiste em destruir livros proibidos e as casas onde esses livros estão escondidos. Ele nunca questiona a destruição causada, e no final do dia regressa para a sua vida apática com a esposa, Mildred, que passa o dia imersa na sua televisão. Um dia, Montag conhece a sua excêntrica vizinha Clarisse e é como se um sopro de vida o despertasse para o mundo. Ela apresenta-o a um passado onde as pessoas viviam sem medo e dá-lhe a conhecer ideias expressas em livros. Quando conhece um professor que lhe fala de um futuro em que as pessoas podem pensar, Montag apercebe-se subitamente do caminho de dissensão que tem de seguir.

Mais de sessenta anos após a sua publicação, o clássico de Ray Bradbury permanece como uma das contribuições mais brilhantes para a literatura distópica e ainda surpreende pela sua audácia e visão profética.

Se não quiserem ler o livro e apreciarem spoilers podem ler aqui um resumo bastante alargado.

Se ainda assim, preferirem ler, podem e devem. É um livro curto que se lê muito bem e se aprecia, pela qualidade da narrativa e que nos faz entender porque é que os livros e o conhecimento são perigosos - elevam-nos e afastam-nos do vulgar e do curriqueiro.

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Uma Mulher Rebelde

 


A vida de uma mulher segundo a cultura islâmica.

Numa época em que os diferentes ideais políticos e religiosos entre Oriente e Ocidente se acentuam, chega a Portugal este fascinante relato, escrito na primeira pessoa, sobre a vida e o nascimento de uma mulher no seio de uma cultura islâmica. Ayaan Hirsi Ali nasceu na Somália e, até ao momento em que fugiu para a Europa, foi vítima de muitas das crueldades sofridas pelas mulheres do mundo islâmico. Nesta obra, Ali revela toda a sua história pessoal: as atrocidades do Islamismo, o fascínio pela liberdade adquirida no Ocidente e a luta pela manutenção da mesma. Um livro envolvente, repleto de relatos chocantes que permitirão ao leitor uma visão verdadeira e sentida de uma cultura tão distinta da ocidental.

Críticas de imprensa
«Este é um livro extremamente importante: apaixonante e necessário.»
Salman Rushdie, autor de Versículos Satânicos

«Uma Mulher Rebelde é um livro único, Ayaan Hirsi Ali é uma escritora única e ambos merecem ir longe.»
The Washington Post

«Precisamos desta autobiografia porque a vida de Hirsi Ali é a sua própria mensagem.»
Financial Times

Nota do autor
«A minha bússola moral estava dentro de mim, não nas páginas de um livro sagrado.»
Ayaan Hirsi Ali

Bibliografias não são o meu género de narrativa mais apreciado, mas depois de ler este livro ficquei a pensar que talvez tenha perdidos outros tão bons quanto este.

Aconselho. Ao mesmo tempo que ficamos chocados com o que Ayaan Hirsi nos conta desde a sua infância até à idade adulta, ficamos impressionados com a sua força de vontade e com a sua atitude perante tamanhas atrocidades em nome da tradição.

quarta-feira, 24 de setembro de 2025

De tirar o chapéu

 

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Tu és digno, Senhor e Deus nosso, de receber a glória, a honra e o poder, porque criaste todas as coisas e por Tua vontade elas vieram a existir e foram criadas. Apocalipse 4:11

O versículo de hoje faz parte da liturgia celestial.

O texto descreve um grupo de 24 anciãos prostrando-se diante do trono de Deus. Eles são aqueles que ressuscitaram por ocasião da morte e ressurreição de Jesus e agora vivem no Céu, aguardando os demais salvos que subirão na segunda vinda de Cristo. Antes de iniciar seu cântico, eles colocam as suas coroas diante do trono (Ap 4:10). Isso é muito significativo, considerando que estão depositando a coroa da vida que receberam de Deus (Ap 2:10; 4:4). Para João, esse gesto era ainda mais emblemático, compreendendo seu significado nos tempos de Roma.

Cícero relata que, quando Tigranes, o rei dos armênios, foi levado a Pompeu como cativo, ele se prostrou jogando sua coroa aos pés do romano, que a pegou e a colocou de volta em sua cabeça. Da mesma forma, Tácito relata que os nobres da Pártia fizeram o mesmo gesto diante da estátua de Nero. Essa atitude remete a uma expressão muito conhecida no Brasil: “isso é de tirar o chapéu”, ou seja, “isso é digno de admiração, elogio”.

Essa prática foi trazida pelos franceses, que tinham o costume, posteriormente transformado em lei por Luís XIV, de usar chapéu como sinal de respeito.

Assim, em ambientes externos, os homens deveriam estar sempre de chapéu e apenas o retiravam em ocasiões especiais, fazendo gestos suaves que denotavam reverência. Em cerimônias públicas, o chapéu era levemente erguido e a cabeça inclinada ligeiramente. Porém, em momentos de grande euforia, era comum tirar completamente o chapéu e jogá-lo para o alto, pois aquela situação era realmente “de tirar o chapéu”! Seria a cena celestial uma forma de dizer que Cristo é “de tirar a coroa”, ou melhor, “de tirar o chapéu”? Não, por um detalhe. Falta a essa expressão algo sem o qual a reverência não ficará completa: o gesto implica submissão. De nada adianta admirar Jesus e não se submeter a Ele.

É como tentar voar em um avião sem uma asa. Não funciona. 

Junto com nossa coroa, é importante também lançar nosso coração aos pés de Cristo. Você está disposto a se submeter a Cristo hoje?

Devocional paraAdultosdo diaQuarta-feira,  24 de Setembro de 2025 
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sexta-feira, 12 de setembro de 2025

A Sedução de Laodiceia

 

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Ao anjo da igreja em Laodiceia escreva: “Estas coisas diz o Amém, a Testemunha fiel e verdadeira, o Princípio da criação de Deus.” Apocalipse 3:14
Você sabia que Laodiceia foi uma cidade seduzida? Quando Antíoco a tomou para si, a cidade antes chamada de Dióspole e Roa passou a se chamar Laodiceia em homenagem a Laodice, esposa do conquistador. Nenhum povo gosta de um invasor estrangeiro.

Por isso, Antíoco enfrentou oposição no início.

Mas logo o ambiente hostil começou a mudar à medida que a cidade prosperava sob seu governo. Para fazer jus ao nome da rainha, a nova Laodiceia tinha de ser uma metrópole de infraestrutura exemplar, com arquitetura refinada. Isso impressionou os moradores acostumados à simplicidade. Estrabão, historiador grego do 1º século, afirma que a cidade não tinha importância alguma antes de Antíoco. No entanto, com a administração selêucida, as coisas mudaram, e Laodiceia se tornou uma das cidades mais famosas da Anatólia.

A partir de então, o antigo inimigo passou de tirano a benfeitor. Suas melhorias seduziram o povo, que começou a desfrutar de tranquilidade, admiração e orgulho de sua nova condição. O progresso, nesse caso, teria custado ao povo o desapego às suas antigas tradições. Os principais edifícios de culto foram extintos, e novos templos com novos deuses foram inaugurados. Com esse contexto, faz sentido entender Laodiceia como um símbolo dos erros do cristianismo no fim dos tempos. Sendo um termo grego, Laodiceia deriva de duas palavras: laos e dikaios, que significam respectivamente “povo” e “juízo”. Estamos acostumados a ouvir que o sentido mais próprio do termo seria “julgamento do povo”, o que está correto.

Contudo, há outra possibilidade etimológica que acentua mais um lado da questão. Laodiceia também pode ser traduzida como “o povo que julga”. 
Isso significa que o ser humano, tomando as rédeas da ética, supõe exercer o papel de definidor do bem e do mal no lugar de Deus.

É o que acontece quando a vontade do povo suplanta o “assim diz o Senhor”. De fato, Laodiceia representa o último período da história do povo de Deus antes da volta de Jesus. Mas isso não deve ser desculpa para distorções morais.

Estar no período de Laodiceia não nos obriga a permanecer na condição de Laodiceia.












segunda-feira, 1 de setembro de 2025

Quem se importa com Deus?

 

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Diz o insensato no seu coração: “Não há Deus.” Corrompem-se e praticam iniquidade; já não há quem faça o bem. Salmo 53:1

O “insensato” mencionado no versículo de hoje não se refere a um indivíduo específico, mas, sim, a uma classe de pessoas. A palavra hebraica nâbâl, usada para descrever o “sem noção”, não denota aquele que é inculto por falta de recursos, mas aquele que persiste na ignorância mesmo diante da oportunidade de conhecer a Deus.

É a teimosia no erro que o leva à perversão, opondo-se à sabedoria. Por isso, o texto nos convida a refletir: A quem importa a existência de Deus? Essa pergunta é a essência da vida. Se Deus não existir, não há razão para nos interessarmos por Ele.

No entanto, se Deus existir, nossa relação com Ele se torna o aspecto mais crucial. Muitos podem considerar o assunto irrelevante. Entretanto, quem pensa assim ainda não entendeu o problema. Afinal, até filósofos céticos, como Sartre e Camus, admitiram que a existência de Deus é importante para a humanidade, pois, se o ateísmo estiver certo, não há nenhum propósito na vida, a não ser o acidente de existir por um momento.

Fernando Pessoa, que também era ateu, definiu o ser humano como um “cadáver adiado que procria”, e Nietzsche, que anunciou a “morte de Deus”, reconheceu a orfandade que viria disso. Sem Deus, dizia ele, “vagueamos por um nada infinito, sem nada acima nem abaixo. É preciso acender lanternas de manhã e inventar jogos que assumam o lugar da cerimônia religiosa” (A Gaia Ciência, p. 181). Coincidência ou ironia, o próprio Nietzsche passou os últimos anos de vida nas trevas da insanidade, amparado por sua mãe piedosa, que orava por ele. Percebe como até mesmo intelectuais que não têm fé reconhecem que é complicado viver sem Deus? Sem Ele, a vida se torna absurda, carente de sentido, valor ou propósito definidos. É como um trecho de Macbeth, em que Shakespeare retrata a história humana como uma sombra que anda, e nós como atores simplórios, iludidos em nosso instante de glória, para descobrir depois que tudo não passa de um conto narrado por um tolo, cheio de fúria, sem significado algum. E para você? Como a existência de Deus afeta sua vida?

Devocional paraAdultosdo diaSegunda-feira,  01 de Setembro de 2025 

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Perseverança

 

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É pela perseverança que vocês ganharão a sua alma. Lucas 21:19

O versículo de hoje usa uma expressão idiomática: “ganhar a alma”. Ela é análoga ao que vemos em Mateus 24:13 e Marcos 13:13, em que se afirma que “aquele que perseverar até o fim, esse será salvo”. A expressão contrária seria aquela referente ao indivíduo que ganha o mundo inteiro e “perde a própria alma” (Mc 8:36).

“Ganhar a alma”, portanto, significa ser salvo.

Mas observe que isso só acontece mediante perseverança, interesse e dedicação. Perseverança implica algo que gera desconforto. Ela envolve esforço pessoal, persistência e luta contra a própria vontade, e nada disso é fácil de executar na prática. Contudo, temos a graça de Cristo que nos fortalece. Deus capacita aqueles que, por si mesmos, jamais conseguiriam a vitória. Essa graça não transforma o indivíduo em um perseverante automático.

Ela é mais como o combustível, que permite a partida do automóvel, mas cuja direção depende de quem está ao volante. Ou seja, compete a nós tomar as rédeas de nossa vida, tendo Deus como nosso sustento. E se falharmos no meio do processo? 1 João 2:1 oferece a resposta: “Se alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo.” Lembro-me de alguns versos atribuídos ao educador inglês W. E. Hickson que resumem com maestria a trajetória cristã: Mesmo que seja necessário tentar mil vezes, vamos, pela graça de Cristo, tentar novamente? Confie nisso, e você perceberá que valerá a pena. É uma lição para aprender, Tente, tente outra vez. Se a princípio não conquistar, Tente, tente outra vez. Para que a coragem possa vir, Pois se você perseverar, Vai conquistar, vai reagir, Então, tente outra vez.

A maneira de tentar, quando tudo mais falhar, É tentar outra vez.

Devocional paraAdultosdo diaDomingo,  31 de Agosto de 2025 

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terça-feira, 12 de agosto de 2025

Por que chorar?

 

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Jesus chorou. João 11:35

O texto bíblico de hoje é o menor versículo do Novo Testamento.

Mas, apesar de seu tamanho, ele apresenta uma das mais significativas revelações acerca de Cristo. O Filho de Deus participou totalmente do sofrimento humano; Sua dor nunca foi teatral. Ele sentiu na pele a angústia que nós sentimos, especialmente a angústia da morte. Por isso, Deus entende quando choramos, pois as lágrimas escorrendo pelo rosto são um inconfundível pedido de ajuda. Junto delas podem vir gritos, soluços, suspiros ou o queixo trêmulo, com os cantos da boca virados para baixo. Esses fenômenos ocorrem porque nossa respiração e o batimento cardíaco mudam radicalmente quando estamos chorando, e isso não é uma peculiaridade humana; ocorre também com os animais.

Embora alguns biólogos insistam em dizer que o choro é uma atividade exclusivamente humana, vários cientistas têm afirmado que os animais também choram, como é o caso dos cavalos e dos bois. Crocodilos que vivem no mar também choram, mas não por estarem tristes; esse é o meio de limpar o excesso de sal que fica em seus olhos.

Daí a expressão “lágrimas de crocodilo”, ou seja, chorar sem nenhuma emoção. Ainda não se sabe exatamente como funciona o mecanismo que provoca o choro.

Porém, pesquisas indicam que as lágrimas ajudam a eliminar substâncias produzidas durante o estresse. Quando os canais lacrimais não conseguem lidar com essas substâncias, o que é recolhido escorre pelas narinas e pelo suor do rosto.

Por isso, sentimos alívio depois que choramos.

Essas substâncias eliminadas poderiam, a longo prazo, causar danos ao organismo. Portanto, quem segura o choro deveria deixar de lado o orgulho e permitir que as lágrimas banhem seu rosto. Dizem que uma pessoa regular chora, em média, 250 mil vezes durante sua vida. É muito choro, não é mesmo? Mas não se preocupe: esse rio de sofrimento vai acabar. Há momentos em que uma única lágrima substitui dezenas de frases.

Quando lhe faltarem palavras para expressar sua dor, chore aos pés de Cristo. Ele também chorou, e não há vergonha nisso. Jesus entende o que é sofrer, ser rejeitado, incompreendido e odiado. Ele confortará você. Um dia, derramaremos a última lágrima, e certamente será de emoção por estarmos com Deus. Com alegria, nos despediremos da tristeza.

Devocional paraAdultosdo diaTerça-feira,  12 de Agosto de 2025 

quarta-feira, 23 de julho de 2025

O Grande Conflito

 

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Ele, porém, lhes respondeu: “Um inimigo fez isso.” Mateus 13:28

Ao longo da história, filósofos e cientistas têm indicado evidências fantásticas de um planejamento inteligente no Universo. No século 18, o filósofo William Paley usou a analogia do relojoeiro. Ao comparar uma pedra a um relógio, ele concluiu que “o relógio requer um projetista que, em algum tempo e em algum lugar, deve ter existido.

Um artífice, ou artífices, que o fez com o propósito para o qual descobrimos que ele realmente responde” (link.cpb.com.br/887fa9). Simplificando, Paley argumentou que, da mesma forma que um relógio indica a existência de um relojoeiro que o fez, o mundo indica a existência de um Deus que o projetou. Essa ideia agradou aos religiosos e popularizou a Teologia Natural, que tenta provar a existência de Deus por meio de argumentos puramente racionais, vindos da observação da natureza. O problema com essa abordagem, frequentemente utilizada por defensores do design inteligente, é que ela se abstém de recorrer a qualquer revelação especial ou sobrenatural, como as Escrituras Sagradas. Isso gera limitações e vulnerabilidades em sua proposta. Assim, embora Paley professasse fé na Bíblia, suas ideias foram usadas por pensadores deístas que diziam que Deus existe, mas abandonou o mundo à própria sorte.

Eles utilizaram a mesma analogia para argumentar que Deus criou o mundo, deu corda e foi embora. Um pouco antes de Paley, o cético David Hume contestou as noções de design, lembrando que essa mesma natureza aparentemente “planejada” está repleta de monstruosidades e defeitos congênitos.

Esse argumento ressurgiu no século 20 com a publicação do livro O Relojoeiro Cego, escrito por Richard Dawkins, que ironicamente contra-argumentou que, se há um Relojoeiro-Criador, Ele é muito ruim de serviço. É por isso que, mesmo revelando a existência de Deus, o discurso da natureza será incompleto. Precisamos conhecer a revelação bíblica e sua história do grande conflito. Na parábola do joio, a expressão “um inimigo fez isso” resume a controvérsia cósmica, que explica muitas coisas. Estude esse assunto e veja o quadro completo. Acredite, o relojoeiro não é cego. O relógio é que não está exatamente como Ele planejou.
Devocional paraAdultosdo diaQuinta-feira,  24 de Julho de 2025 


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