quarta-feira, 1 de julho de 2026

Auspicious Pattern Lotus House

 

Autor: Ye Ping Ping Zhu 


Há dez anos, Li Xiangyi, o mestre da Seita Sigu, dominava com a sua superior habilidade na espada e era um símbolo de luz no mundo marcial. No entanto, ele desapareceu de repente juntamente com Di Feisheng, o líder da Aliança Jinyuan, depois de terem combinado um combate no Mar do Leste.

Dez anos depois, Li Lianhua é um médico rural nas suas viagens enquanto arrasta consigo uma torre de lótus. Acidentalmente torna-se “famoso” e é levado para o mundo marcial com o qual já não queria ter qualquer ligação. Fang Duobing, um jovem apaixonado que sonha em se tornar um herói, percebe que Li Lianhua não é um homem simples e promete encontrar provas de que Li Lianhua tem estado a fingir ser um médico famoso, enquanto juntos resolvem casos misteriosos e defendem a justiça.


Por acidente, deparei-me com alguns recortes de uma série chinesa chamada "Mysterious Lotus Casebook" e achei a história tão interessante que comecei à procura do livro no qual ela estava baseada, isto porque, séries/dramas chineses não são realmente a minha "paixão", embora aprecie grandemente o guarda-roupa dos personagens e as magnificas cenas de luta, e  porque pensei que nunca iria assistir a tal série. E além disso, sempre, em qualquer ocasião, prefiro um livro a um filme.

Pois, "nunca digas nunca", acabei por assistir à série e estou quase a terminar o livro que é composto por quatro volumes de cerca de 300 páginas cada. Entre livro e série há diferenças que se entendem a bem da necessidade da beleza e do ritmo que o cinema exige. Ainda não posso dizer se o fim fará parte das diferenças e a seu tempo virei editar esta mensagem ou publicar uma segunda parte, com essa informação.

A narrativa do livro fez-.me lembrar várias vezes os casos de Sherlock Holmes que com a sua perspicácia os resolvia e é muito interessante de ler. A tradução para inglês foi graciosamente disponibilizada por um autor não profissional, e que com um nível de inglês muito bom e também muito acessível nos facilita a leitura quando pelo meio existem termos e situações que só os chineses entendem, mas que nos são esclarecidos no final de cada capítulo.

Se gostam de ler autores diferentes, sobre realidades diferentes aconselho esta leitura se gostarem de mistérios.

Se preferem ver a série que é muito mais rápida na sua narrativa, embora tenha 40 episódios de cerca de 40 minutos cada um, irão perceber perfeitamente tudo o que o livro conta de uma forma mais lenta e completa.

Sinopse da série:

"Dez anos depois de desaparecer num duelo com o seu rival Di Fei Sheng (Xiao Shun Yao) o antigo mestre de artes marciais Li Xiang Yi reaparece como um médico errante chamado Li Lian Hua (Cheng Yi) Embora deseje uma vida tranquila, é puxado de volta para o mundo da luta, perseguido pelo entusiástico Fang Duo Bing (Zeng Shunxi) e reconhecido pelo regressado Di Fei Sheng. À medida que os segredos se desvendam, os três formam um vínculo improvável e trabalham juntos para resolver mistérios e manter a justiça."

https://www.youtube.com/watch?v=ecPxWg6hOyY&list=WL&index=198

https://www.youtube.com/watch?v=n4FtjSmcYyQ&list=WL&index=199

A melhor parte deste drama é, sem dúvida, os três personagens principais e o relacionamento entre eles. Eles são a essência do drama e o motivo pelo qual é tão divertido. Li Lianhua, o mentiroso patológico astuto e aparentemente indiferente que prefere plantar vegetais a voltar à sua antiga glória. Fang Duobing, o jovem detetive impulsivo e encantadoramente leal que nunca sabe o que se passa. Di Feisheng, o arrogante e sarcástico inimigo que virou amigo e que parece ser tanto egoísta quanto altruísta.

São as suas lutas caóticas, os diálogos espirituosos e o Fang Duobing a ser constantemente enganado que definem este drama e o tornam tão reconfortante. Li Lianhua forma relações preciosas com os outros dois personagens: amizade com o Fang Duobing e uma amizade/rivalidade sã com o Di Feisheng.

Há uma reclamação que se repete em vários fóruns, relativamente à dinâmica das personagens é que a maior parte das pessoas gostava que o Di Feisheng tivesse tido mais tempo com os outros personagens. O drama estava mais focado na amizade entre a Li Lianhua e o Fang Duobing, por isso o DFS passou muito tempo afastado deles. Isto também acontece na novela.  

Há, pelo meio, como não podia deixar, relances sobre uma história de amor a que é dada mais importância na série do que na novela. Em qualquer dos casos, se aceita bem a decisão de ambos os personagens, mas na série deixa-nos um maior "amargo de boca".

Quanto ao enredo, os casos eram interessantes, embora resolvidos facilmente o que se entende, ao contrário do livro que tinham uma resolução mais complexa e demorada! Cada caso geralmente ocupa cerca de 2-3 episódios, com episódios ocasionais pelo meio dedicados a avançar o enredo geral. É divertido ver Li Lianhua resolver cada caso (por menos realistas que sejam) e ligar as pistas. Não se trata de um enredo especial ou sofisticado, mas serve a intenção para vermos o desenvolvimento das personagens e percebermos que as razões para cada decisão são resultado de um passado que querem ultrapassar (em especial no caso de Li Lianhua e Di Feisheng).

O ator Cheng Yi foi uma escolha acertadíssima para este papel e cada vez que ouço opiniões de quem conhece o seu trabalho, confirmo esta opinião pois tem uma capacidade nata para representar e todas as cenas se veem naturais. Desde o coçar do nariz casual de Li Lianhua ao comportamento pomposo de Li Xiangyi, aos olhos cheios de dor e às observações espirituosas, o Cheng Yi interpretou na perfeição tanto a Li Lianhua quanto a Li Xiangyi.

Uma coisa que gostei na narrativa foi o arco de Li Lianhua/Li Xiangyi que por vezes parecia demasiado justo e auto-sacrificado, mas gostei de ver como ele lidou com o seu passado e como seguiu em frente. Gostaria que tivesse havido um pouco mais de auto-perdão envolvido, mas provavelmente o autor queria o personagem atormentado para justificar a mudança.

Conhecemos a importância que é dada à beleza masculina nos c-dramas chineses, por causa dos padrões estéticos e expectativas do público. Os dramas chineses (especialmente os C-dramas de romance e fantasia) tendem a investir muito na aparência dos protagonistas masculinos porque o público alvo é especialmente feminino e jovem. Considerando esta realidade há uma curiosidade elativamente a uma diferença entre livro e série. No livro, ao longo da narrativa, e na série em alguns diálogos há várias chamadas de atenção à juventude e à beleza dos personagens masculinos em primeiro lugar e femininos em último lugar. E a esse respeito há uma diferença enorme num dos personagens. Na novela, a personagenm Shi Shui é um homem de aspeto rude e assustador, voz grossa e alta e com um sinal de grandes dimensões no rosto, e na série é uma bela e jovem mulher.


Não conheço outro e sinceramente, não quero ver outro drama chinês, mas recomendo este se tiverem curiosidade e se estiverem à procura de personagens adoráveis, muitas gargalhadas e sorrisos, e alguns casos de assassinato interessantes! E ainda algumas danças com espadas brutais e uma banda sonora muito boa!

(Eu disse banda sonora, certo? É que foi mesmo e apenas o som que me encantou, porque a letra ficou apenas para os que sabem chinês!) Podem ouvir no link abaixo.

https://www.youtube.com/watch?v=QFW7YZKDa_o&list=WL&index=197


terça-feira, 30 de junho de 2026

Ficção vs realidade

 

(Pinterest)

Já não é a primeira vez que confesso que leitura e escrita sempre fizeram parte da minha vida, de alguma forma. Desde que aprendi a escrever e a ler achava interessante escrever mini contos e ilustrá-los e lia os livros que apanhava em casa, que eram de bibliotecas itinerantes (infelizmente desaparecidas), que por sorte os meus pais frequentavam. Aos onze ou doze anos li um livro cujo enredo e conclusão não entendi e não aceitei, respetivamente. E que, pela segunda razão, me fez desejar criar um final alternativo. No mesmo momento achei que seria uma tarefa inglória e isso me levou a desejar escrever o meu próprio livro, à minha vontade, com o enredo e as personagens a meu gosto.


E passei, assim, a escrever contos mais ou menos extensos, que apenas tinham direito a ser lidos por alguns amigos mais chegados, até à altura em que me atrevi a publicar; e, assim, entre publicações em editoras virtuais e edições físicas reuni uma série de "obras" que fazem parte de um espólio que muito acarinho e que não tem mais valor do que aquele que eu lhe dou.

Mas não é este o motivo desta publicação. 

Houve alturas em que me perguntei, será a criação de realidades ficcionais uma boa ideia para quem tem como maior realidade uma esperança na Volta de Jesus, mesmo que isso, para muitos, seja apenas ficção? 

Quando crio uma personagem e um enredo ficcional, queira ou não, há sempre um "cheirinho" daquilo em que acredito pelo meio da narrativa e dos diálogos. E não precisam de tratar diretamente disso. Creio eu que é isso que me mantém lúcida e realista em meio à ficção criada. Ou seja, alguém que vá ler um dos contos, lê apenas uma história em que pode acreditar ou não e que pode gostar muito, pouco ou nada. Se não crê em mais nada, além desta realidade de vida, o conto não lhe causa qualquer transtorno, seja pura fantasia ou não. Se quem lê, crê em algo mais além desta vida, pode considerar uma afronta esse tipo de fantasia. São factos. E como se diz, contra factos não há argumentos. E muitas vezes, anos atrás, este segundo facto alcançava-me assim como uma auto crítica - será uma afronta este tipo de fantasia? E quando lia alguns contos escritos anos antes, tinha a certeza que os escreveria de outra forma, com outro enredo e outra conclusão.

Mas, alguns anos passados, depois de escrever esses contos e de driblar essas dúvidas, assentei. Tenho consciência de que a fantasia não passará disso e que não deve passar disso, mas também tenho a certeza de que partes da narrativa e dos diálogos, como já disse, me dirigem para as minhas crenças. E se as coisas nos dirigem para aquilo em que cremos e não nos tiram o foco dessa realidade, haverá algum problema em ler ou escrever ficção?

Muitos contos ou romances, chamados cristãos, são fantasia. Dirigem os leitores para a fé e para Cristo, através de uma narrativa ficcional. Mas o que dizer daqueles que não são romances cristãos? Aqueles que se limitam a narrar quaisquer histórias de personagens e ações e que nunca falam de Cristo? Podem fazer o mesmo?

Acabei de ler um desses, esta semana. Por vezes, gosto de reler alguns dos meus contos e foi o que fiz. E ao ler, dei-me conta de em alguns momentos da narrativa da ação, apesar de ficcional como ela é, nos diálogos e pensamentos dessas personagens vem à superfície a necessidade e a crença em algo maior, algo melhor, que nos console, nos sustente e nos oriente. E é nas suas ações ou reações que compreendemos essa necessidade quando resulta num abandono no momento. Um abandono de uma força própria que naquele momento não faz sentido e nem resulta e a sua troca por uma submissão consciente como única esperança para ultrapassar momentos específicos.

E o curioso, e onde eu queria chegar, é que,  num mundo de realidades onde nos é pedido uma força que nem sempre temos para lidar com situações que nos afligem, e que muitas vezes nos levam a procurar literatura escapista, o que temos a fazer é abandonar essa força própria e trocá-la pela submissão consciente e total Àquele que é o Único que nos pode fazer ultrapassar esses momentos.

E, há várias formas...

Na angústia invoquei ao Senhor, e clamei ao meu Deus; desde o seu templo ouviu a minha voz, aos seus ouvidos chegou o meu clamor perante a sua face. Salmo 18:6

“Lancem sobre ele toda sua ansiedade, porque ele tem cuidado de vocês.” (1 Pedro 5:7).


Sobre o assunto nesta mensagem gostaria de partilhar um artigo publicado em 2023 no Jornal da Educação Adventista, influenciado por alguns escritos, dos quais também partilho um capítulo de um livro da escritora americana Ellen White sobre "Livros de Ficção (...)"








terça-feira, 16 de junho de 2026

Atualização das leituras

 


Nem sempre consigo publicar as minhas opiniões ou pelo menos as sinopses dos livros que acabo de ler, nem que seja para meu registo pessoal, por isso hoje, ao contrário do habitual, para colocar a "coisa" em dia, vou fazer numa publicação apenas a atualização das leituras dos ultimos dois meses.

le vai lembrá-la que prometeram ficar juntos. Até que a morte os separe.

Não vivo aqui há muito tempo. A casa é pequena e um pouco degradada, mas cada pedaço do papel de parede florido e desbotado que arranco parece desvendar a segunda oportunidade que nunca pensei vir a ter. Finalmente, posso vestir o que quero, e já não me encolho quando queimo o jantar por acidente. A minha nova casa é acolhedora, e os meus filhos estão seguros dentro dela. Qualquer lugar pareceria um paraíso depois do casamento infernal de que acabei de escapar. Mas então vejo o meu ex-marido a passar diante da minha janela e a entrar diretamente na casa ao lado. O pânico aperta-me a garganta. Como é que ele me encontrou? Será que está a tentar voltar para mim… ou quer destruir-me de vez?


Achei este livro com uma ação ao estilo de "A Rapariga no Comboio" de Paula Hawkins, com a diferença de que em "A Rapariga no Comboio" foi a protagonista que tomou a ação de se envolver e neste caso, foi o contrário e a nossa protagonista é apenas a vítima.

Fácil de ler e interessante para quem gosta do género thriller psicológico.


2014: Num jantar para amigos e colegas próximos, o conceituado poeta Francis Blundy presta homenagem à sua mulher, no aniversário dela, lendo em voz alta um novo poema que lhe dedica: Uma Coroa para Vivien. Mal sabem os convidados que depois daquele jantar serão várias as gerações a especular sobre a mensagem daquele poema, cujo registo original nunca foi encontrado, permanecendo um mistério.

2119: Pouco mais de cem anos depois, grande parte do mundo ocidental está submersa pela subida do nível do mar após um acidente nuclear catastrófico. Aqueles que sobrevivem são assombrados pela riqueza de um mundo que se perdeu. No sul inundado do que costumava ser a Inglaterra, Thomas Metcalfe, um solitário investigador, idealiza o início do século XXI enquanto persegue o fantasma de um poema. Thomas sente fascínio por aquelas vidas selvagens e cheias de riscos, enquanto se debruça sobre os arquivos dessa era distante, cativado pelas possibilidades da vida humana. Quando tropeça numa pista que pode levar à descoberta do poema dedicado a Vivien, encontra também uma história de amores entrelaçados e de um crime brutal, que destrói as suas suposições sobre pessoas que julgava conhecer intimamente.

O que Podemos Saber é uma obra-prima, um tour de force filosófico, uma história de amor sobre pessoas e as palavras que elas deixam para trás, um enredo detectivesco que resgata a nossa actual sensação de catástrofe iminente e imagina um mundo onde nem tudo está completamente perdido.


Às vezes, em situações semelhantes, receio não me ter esforçado o suficiente, mas não consegui passar das primeiras páginas. Se o autor tivesse dado primazia ao ano 2119 e o restante fossem apenas resquicios de lembranças para justificar a ação talvez tivesse tomado outra atitude. Mas passou demasiado tempo, desde o início, com o aniversário de Vivien e o famoso poema e poeta, o que não me cativou.
Achei desinteressante.


Era uma vez um casal de lenhadores muito pobres que vivia numa floresta, por onde passava um comboio de mercadorias. Como estavam em guerra e era inverno, não tinham quase nada para comer. Por isso, a lenhadora sonhava que um dia alguém lhe atiraria uma coisa boa e deliciosa do comboio. Os lenhadores não tinham filhos, o que para ele era um alívio mas, para ela, um grande desgosto.

Era uma vez um casal de judeus que viajava num comboio com dois bebés praticamente recém-nascidos. O pai sabia que não iam para um lugar nada bonito e, ao atravessar a floresta, teve uma ideia bastante insensata…

Vendido em mais de dez países, finalista de uma série de prémios literários, escolhido pelo realizador Michel Hazanavicius para ser em breve um filme de animação, A Mais Preciosa Mercadoria é uma fábula sobre Auschwitz que se inspira num episódio real e não cessa de perturbar e comover leitores em todo o mundo, sobretudo por ter essa rara qualidade de poder ser lida por pessoas de todas as idades. Em França, onde foi originalmente publicado, já se imprimiram mais de 90 000 exemplares.


Trata-se de um conto em 120 páginas que se lê de uma assentada apenas.
Faço minhas as palavras de "Florbela" e mais não digo correndo o risco de contar a história toda em dois ou três parágrafos.

Um Conto sobre a bondade em tempos de horror

Florbela

“A Mais Preciosa Mercadoria”, de Jean-Claude Grumberg, é sobre a violência do Holocausto narrada com simplicidade e força poética. Em poucas páginas, o autor contrapõe a brutalidade humana à capacidade de compaixão, mostrando como um gesto de cuidado pode sobreviver mesmo nos contextos mais sombrios. É um livro pequeno, mas de grande impacto emocional, que faz pensar muito depois da última linha.

Aconselho.


Dois jovens empolgados, Asier e Joseba, partem em 2011 para o Sul de França com a intenção de se converterem em militantes da ETA. Esperam instruções numa quinta com um aviário, acolhidos por um casal francês com quem pouco se entendem. É lá que ficam a saber que o grupo anunciou o fim da atividade armada.

Abandonados à sua sorte, sem dinheiro, sem experiência nem armas, decidem continuar a luta por sua conta, fundando uma organização própria, na qual um assumirá o papel de chefe e disciplinado ideólogo, e o outro o de subalterno mais descontraído. O contraste entre o ensejo de feitos heroicos e as peripécias mais ridículas, sob uma chuva persistente, vai conduzindo a história para uma espécie de drama cómico. Até que conhecem uma jovem que lhes propõe um plano.

Depois do sucesso de Pátria, este novo romance de Fernando Aramburu arrasta-nos, de uma forma muito ágil e surpreendente, para uma aventura inesperada com um desenlace magistral. Contado com um humor permanente, cáustico e veloz, e escrito com frases cuja brevidade são um autêntico virtuosismo, Filhos da Fábula é mais uma prova de que Fernando Aramburu pertence à estirpe dos grandes escritores, aqueles que nos contam histórias como mais ninguém é capaz de o fazer.


Não vou dizer que é desinteressante como o livro de Ian McEwan, apenas porque não me cativou o primeiro capítulo. Já não me sinto com pedalada ou disposição para avançar na leitura de um livro, que de início não me cativa, a tentar encontrar algo que me mantenha empenhada a ler. 

Para não dexiar esta publicação, sobre este livro, a seco, vou partilhar a conclusão do ChatGPT sobre este livro: o livro é uma sátira sobre dois jovens que chegam tarde demais à “revolução” e acabam confrontados com a inutilidade das suas fantasias heroicas.

E dito isto, não em arrependo de não ter continuado.

segunda-feira, 27 de abril de 2026

O Paraíso Perdido (2ª parte)

 


Há muitos mais, que gostaria de partilhar, mas para já, apenas este trechos:

                                                        "Quer seja p’ra depor o rei do Céu

Sendo a força o ideal, quer p’ra reaver

Um direito de lei, p’ra destroná-lo

Só esperando um lapso da presciência

Num ataque casual, sendo o Caos +arbitro:

Vã crença no primeiro atesta vão

O segundo. Que pouso haverá p’ra nós

No umbigo do Céu, se o dono supremo

Não vencermos? Suponham que ele afrouxa

E publica geral graça, sob jura

De nova sujeição; e nós, que cara

Seria a nossa lá, baixando olhos,

Catando à força estritas leis, louvando-o

No trono entre um chilreio de hinos, coros

De aleluias forçados, invejando-o

Ao sentar-se senhor supremo, de ara

Golfando odor de ambrósia, das ambrósias...

 

Nossa oferta servil. Esta a tarefa

No Céu, nosso deleite; que enfadonho

Eterno gasto em pagas de louvor

A quem se odeia. Não busquemos, pois,

Por força obstante, por licença obtida,

O inaceitável grau, no Céu embora,

De vassalagem esplêndida, mas antes

O nosso bem em nós, e de nós próprios

E vamos p’ra nós, mesmo em vasto ermo

Livres, sem dar conta a quem, amando

Árdua soltura mais que o suave jugo...

 

Té que avidez e orgulho me abateram

Em guerra no Céu contra o rei sem par.

Ah, porquê? Troco assim não merecia

De mim, a quem à luz da iminência

Deu o ser, e com seu bem a ninguém

Exprobrou. Nem custoso foi servi-lo,

Que outra coisa a fazer que não louvá-lo,

Recompensa normal, e dar-lhe graças,

Quão devidas! Mas todo o bem foi mal

Em mim, e só maldade fez. Tão alto

Erguido desdenhei da submissão,

E achei que um degrau mais me elevaria,

E a dívida quitei da gratidão

Sem fim, tão alto preço sempre pago,

Sempre a dever, esquecido do que dele

Sempre obtive...

 

Duas das mais distintas formas, altas

E erecta, como Deus, com honra indígena

Vestida em nudez real de tudo

Pareciam reis, e dignos, pois nos rostos

Divina a imagem, tinham do criador,

Verdade, sabedoria, santidade

Pura e grave, mas posta em liberdade

Filial; no homem daí a autoridade.

Mas um para sem par, tal como os seus sexos

Par e ímpar são; p'ra planos ele e arrojo,

P'ra dulçor ela e graça que cativa;

Ele por Deus só, ela por Deus nele:

(..) Em sujeição, rogada por bom mando,

Por ela entregue e nele mais aceite,

Entregue em submissão, brio modesto,

E em mora de amor doce e relutante.



O Paraíso Perdido (1ª parte)

 

Uma das obras fundamentais da literatura universal numa nova edição com tradução de Daniel Jonas e ilustrações de Gustava Doré.

Publicado originalmente em 1667, o poema épico de John Milton relata a queda do Homem: a tentação de Eva e de Adão, bem como a consequente expulsão do Jardim do Éden. Milton terá escrito o poema ao longo de toda a vida, tendo interrompido o seu trabalho devido à Guerra Civil inglesa, à morte prematura da sua segunda esposa e aos vários momentos de doença (incluindo a cegueira, em 1652).

Na realidade, o próprio Milton terá sido surpreendido pelo caminho que a sua escrita levou ao escrever este épico bíblico, uma vez que tinha em mente compor um épico mais tradicional em torno de reis e de cavaleiros. Milton terá concluído o poema em 1663 e iniciado um longo processo de revisão - desde 1652 que trabalhava com a ajuda de amanuenses e amigos que liam a anotavam as suas indicações, correcções e revisões.

O texto, composto em verso branco, algo inusitado para um épico, tornou-se uma das obras mais influentes da cultura ocidental.

Esta edição bilingue junta a tradução de Daniel Jonas com as gravuras completas de Gustave Doré numa edição inédita em Portugal.

Conheci esta obra há uns anos quando um pequeno trecho da mesma, fazia parte das leituras opcionais de uma das cadeiras da minha licenciatura. Interessou-me, mas não ao ponto de a desejar ler na íntegra. Foi como se a ideia tivesse ficado a maturar, escondida, sem me lembrar dela muitas vezes.

Um dia deste ano, por mero acaso, a obra foi falada, em algum momento, num vídeo do youtube que não tinha nada a ver com literatura e a ideia que estava, como, em banho maria entrou em ebulição.

Requisitei o livro e fiquei um pouco chocada quando me dei conta do tamanho físico do mesmo, mas depois ao folheá-lo percebi que era porque se apresentava bilingue: as paginas ímpares em português e as páginas pares em inglês, que uso apenas para ver como em inglês estão "montadas" algumas das frases.

Estou sensivelmente a meio, e só posso dizer que quem gosta de ler a sério, tem de ler este livro.

Até agora, o que mais me cativa nesta leitura são os detalhes da revolta de Lucifer no Céu, da tentação e da queda do Homem no Éden, tudo partilhado pelo ponto de vista daquele.  A Bíblia não nos fala de alguns detalhes, sejam eles quais forem, porque não interessam para o propósito que a Bíblia tem para a vida do Homem; e é claro que estes detalhes, neste livro, não passam de liberdade poética e até se misturam com narrativa mitológica, onde alguns deuses do olimpo são mencionados, mas para quem leu sobre aqueles assuntos na Bíblia, são como um complemento, de que não precisamos, mas que podemos apreciar e imaginar.

Como disse, estou a meio, mas até agora... recomendo.


quarta-feira, 8 de abril de 2026

Os Conjurados

 



No prólogo ao seu livro mais recente – Os Conjurados – datado de 1985, Jorge Luis Borges escreve: «Ninguém pode estranhar que o primeiro dos elementos, o fogo, não abunde no livro de um homem de oitenta e muitos anos. Uma rainha, na hora da sua morte, diz que é fogo e ar; eu costumo sentir que sou terra, cansada terra. Continuo, no entanto, a escrever. Que outra sina me resta, que outra formosa sina me resta? A felicidade de escrever não se mede pelas virtudes ou fraquezas. Toda a obra humana é precária, afirma Carlyle, mas não o é a sua feitura.
Não professo qualquer estética. Cada obra confia ao seu escritor a forma que procura: o verso, a prosa, o estilo barroco ou chão. As teorias podem ser admissíveis estímulos (recordemos Whitman), mas contudo podem engendrar monstros ou meras peças de museu. Lembremos o monólogo interior de Joyce ou o terrivelmente incómodo Polifemo.
Com o correr dos anos, observei que a beleza, tal como a felicidade, é frequente. Não se passa um dia em que não estejamos, um instante, no paraíso. Não há poeta por medíocre que seja, que não tenha escrito o melhor verso da literatura, mas também os mais infelizes. A beleza não é privilégio de uns quantos homens ilustres. Seria muito estranho que este livro, que abarca umas quarenta composições, não encerrasse uma única linha secreta, digna de te acompanhar até ao fim.»

Sempre achei que há tempos e espaços que embora não fazendo parte da nossa rotina, deviam passar a fazer. Usar tempo para ir a uma Biblioteca para sentar e ler ou apenas para requisitar o que ler em casa, é um momento que deveria fazer parte da rotina principal.
Estar numa Biblioteca e gastar tempo, mesmo que pouco, com outros que estão a fazer o mesmo, é uma forma de chegarmos a livros que de outra forma não chegaríamos.
Aconselharam-me este autor e este livro naquele momento.
Concordei e levei-o para casa.
Um livro tão curto e tão bom de ler que o li num serão e já decidi que lerei um próximo do mesmo autor, em breve.

Constituido por alguns contos curtos e poemas mais curtos ainda, é de leitura agradável, fácil e rápida, suficiente para criar um intervalo entre livros de tamanho "normal" e livros de tamanho XL.

Passo a aconselhar eu também.
Não é a imagem real de quem me aconselhou, mas foi o que o chat GPT criou com as minhas indicações :)




Um GPS divino

 

(bing.com)

Há tempos ouvi uma ilustração que me encantou, sobre Deus ser como um GPS.
Só pelo título a curiosidade crítica, que por vezes nos impele a ir ler ou ouvir o que vão dizer, fez com que assistisse. Um reels de poucos minutos, mas encantador.

Um bom GPS guia-nos num determinado trajeto para que cheguemos em segurança a um destino.

Deus também nos quer guiar num trajeto que nos leve em segurança a um destino - salvação.

Quando decidimos que somos melhores pilotos e sabemos mais que o GPS e mudamos de trajetória, a maior parte das vezes nos perdemos. É nestes momentos que o GPS usa aquela famosa palavra "Recalculando" e nos indica novo caminho, para que cheguemos ao destino.

Muitas vezes, quando na nossa vida nos afastamos do caminho que Deus nos ensinou e por onde nos guia, porque achamos que sabemos mais e melhor, costumamos tropeçar, cair e ficar perdidos. É nessa altura, que Deus "Recalcula" o nosso trajeto. Deus deseja que cheguemos a algum lado e se nós mudamos de direção, Deus usa a direção que nós escolhemos e traça novo trajeto desde aí, até ao destino.

sexta-feira, 27 de março de 2026

Luz na Neve

 

Um admirável romance sobre o amor e a memória, pela aclamada autora de A Praia do Destino.

Os acontecimentos daquela tarde de Dezembro, na qual, juntamente com o pai, encontrou um bebé abandonado na neve, mudarão para sempre a percepção que essa menina de 11 anos tem sobre o mundo e os adultos que a rodeiam. O pai passou por grandes tormentos para se afastar da sociedade, de modo a ultrapassar uma tragédia insuportável. E há um detective cuja inteligência é apenas ultrapassada pelo seu sentido de justiça. Escrito sob o ponto de vista de Nicky, agora com 30 anos, que sempre recorda as vívidas imagens daquela fatídica tarde de Dezembro, Luz na Neve é uma história de amor e coragem, de tragédia e redenção, um romance que nos fala das formas que o coração humano sempre encontra para se poder curar.

Tem apenas 240 páginas, o que, em conjunto com um enredo muito simples e uma narrativa passada num espaço de tempo de poucas semanas, que apenas demoram a passar nas páginas deste livro porque a analepsia que é usada ao longo de toda a narrativa nos transporta para os momentos antes da tragédia que acabou por levar pai e filha para aquele lugar, faz com que este livro seja muito interessante e rápido de ler.

Acompanhamos os personagens e entendemos os seus dilemas e as suas lutas, no momento em que um "achado" vira as suas vidas, ainda mais se fosse possível, de pernas para o ar.

Embora, de inicio, nos pareça que eles desejam que não tivessem encontrado o bebé e que tudo aquilo passe para voltarem à sua vida "escondida e desinteressante", vamos percebendo, mais na personagem de Nicky que não é isso que eles desejam e que aquele "percalço" apenas veio mostrar isso e servir de gatilho para uma revolta contra a forma de viver atual.


quinta-feira, 19 de março de 2026

Vamos falar sobre relacionamentos

 

As amizades e os relacionamentos estão mais consistentes ou menos atualmente?

sexta-feira, 6 de março de 2026

O Prazer de Ler

 

(Pinterest)

Quase por acaso, passei por alguns dos meus trabalhos aquando da Licenciatura em Humanidades e gostei de reler um texto que fez parte de um deles para a cadeira "Teoria da Literatura". Gostei tanto que resolvi partilhar sem editar.

        "A literatura tem o poder de transformar o mundo dos que leem. Ler é mais do que aprofundar conhecimentos ou conhecer coisas diferentes. Ler é entrar em mundos diferentes e conhecer formas de estar e de sentir diferentes das nossas. Para que isso seja um facto na vida de cada leitor, é importante que os livros sejam lidos da primeira à última página; é importante que a vida de cada personagem se compare com a nossa e quanto mais diferente for de nós, mais nos enriquece; é necessário, se o livro não for um romance de personagem, que os espaços e os tempos nos cheguem em todo o esplendor da capacidade do seu autor. Mas para isso acontecer, é necessário ler. Nos vários graus de ensino escolares, a maior parte das obras são dadas a conhecer aos alunos, através de resumos ou de críticas a elas feitas. Uma crítica é importante para o entendimento da obra, se for feita pelo seu leitor, manifestando o que sente, o que desejou ler e não leu e até o que dispensava ter lido. Se não for assim, a crítica, é apenas o ponto de vista de alguém que leu, ou que em muitos casos, esteve em contacto com uma crítica anterior e se limitou a rebater ou a aceitar.

            Podemos, muitas vezes, ler e não concordar com a opinião do autor, com o ponto de vista ou com a forma como ele concluiu determinada obra. Mas se não lermos, os seus pensamentos, afetos, ódios ou desejos nunca chegarão até nós em primeira mão. E se isso não acontecer, a literatura não está a cumprir o seu papel de mudar o mundo (nem que seja apenas o nosso). Para que haja uma conexão com o mundo real, conforme Todorov nos diz, “é importante que a literatura seja o centro do processo educacional” (TODOROV, 2009:11). Se não for através dos programas escolares, a grande maioria dos jovens não vão nunca ter uma obra literária ao seu alcance. Com o desafio digital e virtual dos dias atuais, os livros são deixados em segundo ou terceiro plano ou até, em nenhum plano. Infelizmente, há jovens estudantes que nunca pegaram, para ler, num livro pelo simples prazer de ler. E ler deve ser, mais do que uma obrigação e uma forma de conhecer outros mundos, um prazer na vida, para a vida.

            Todorov diz-nos que a análise da estrutura ou composição de uma obra, “a nível de estilo, composição, formas narrativas, ou seja, a sua técnica literária” (ibidem 18) fez parte dos seus estudos e como ele, concordo que devem fazer parte do trabalho de um leitor, sim, mas apenas como meio auxiliar para entender o contexto social e até pessoal em que foi elaborada a obra. Até porque, com esses auxiliares chegaremos mais eficazmente ao âmago da questão: entender a obra no seu sentido psicológico conforme expresso pelo seu autor. E é esse entendimento que nos enriquecerá e nos fará apreciar o que lemos."

 Podemos adaptar esta ideia à leitura da Bíblia?

Atualmente, muita gente tem acesso à Bíblia e cada vez mais as redes sociais (Instagram, TikTok e afins) partilham pessoas com uma Bíblia na mão. A mostrar um unboxing de uma Bíblia nova e a partilhar os materiais que usam para marcar e escrever nas páginas da Bíblia. Em resumo, partilham o uso da Bíblia no seu dia a dia. E agora pergunto: Essa partilha é porque é moda ou trend, como se diz agora? É porque é bonito e digam o que disserem, a Bíblia como livro físico é maravilhosa? Ou, lê-se a Bíblia porque temos prazer de ler um livro onde Deus fala diretamente connosco? 

Aquela máxima de "A Bíblia é o único livro que quando lês estás na presença do Seu Autor" deveria er para nós uma verdade e deveria levar-nos a sentir prazer em escutar a Sua voz. Não é ouvir as opiniões de outros que leram, não é ouvir as críticas de alguns que nem leram. Isso não faz sentido e não nos enriquece em nada. 

Refaço uma das sentenças do texto acima: Ler a Bíblia deve ser, mais do que uma obrigação ou uma trend, deve ser uma forma de conhecer outras pessoas, outras histórias, contadas por Aquele que conhece o coração do homem, deve ser um prazer na vida, para a vida.

Recomendo!


Lições de Química

 

Elizabeth Zott não é uma mulher comum. Aliás, Elizabeth Zott seria a primeira a dizer que a mulher comum não existe. Mas estamos no início dos anos sessenta e a sua equipa de trabalho no Instituto de Pesquisa Hastings é exclusivamente masculina. Elizabeth pode ter sido uma das melhores alunas do curso de Química (foi), mas todos os colegas esperam que seja ela a ir buscar cafés ou fazer fotocópias (não será). Há, porém uma exceção: Calvin Evans, um jovem brilhante que se apaixona por ela. Entre eles, a química é a sério.

Mas tal como na ciência, a vida nem sempre segue uma linha reta. Anos mais tarde, Elizabeth é mãe solteira e a estrela relutante do programa de culinária mais amado da América, o Jantar às Seis. A sua abordagem à cozinha é extravagante ("combine uma colher de sopa de ácido acético com uma pitada de cloreto de sódio") e revolucionária (mais do que apresentar receitas, ela está a incentivar um número crescente de mulheres a desafiar o mundo). A sua popularidade irrita muita gente.

Longe dos holofotes, Elizabeth também usa a ciência para alimentar o corpo irrequieto e a mente subversiva da filha de quatro anos, Madeline, bem como o espírito crítico de Seis e Meia, o cão. Mas o seu destino parece eternamente adiado. Conseguirá ela cumprir o que em tempos um grande amor profetizou num sussurro?

Elizabeth Zott, ainda vais mudar o mundo.


Confesso que li este livro porque vi um trailer do filme adaptado em 2023 com o nome "Uma Questão de Química" e amei uma das partes apresentadas. Como defendo, um livro é sempre melhor do que um filme, optei por ler o livro em vez de ver o filme. A cena que me incentivou não existe no livro, mas não precisa, pois não se perde nada.

A narrativa não segue sempre uma ordem cronológica e tem pelo meio factos do passado de alguns dos personagens narrados como se estivessem a acontecer naquele preciso momento da narrativa. E estão de tal maneira bem "encaixados" na linha temporal que não nos perdemos na ordem da ação.

A personagem de Elizabeth estala como uma chicotada na mente dos anos sessenta, quando apenas se via a mulher como doméstica bem comportada e submissa. Elizabeth, mau grado os caminhos da vida e os rótulos que lhe põem por ser mãe solteira, é bem comportada mas não é nem doméstica e nem submissa. E luta pelos seus direitos da forma que pode, aproveitando oportunidades que nem sempre são as que desejava ou esperava.

Uma história interessante apresentada com uma narrativa muito fluída e os diálogos muito bem conseguidos fazem deste livro um "Recomendo"!


O Homem em Busca de um Sentido

 


Nos seus momentos de maior sofrimento, no campo de concentração, o jovem psicoterapeuta Viktor E. Frankl entregava-se à memória da sua mulher - que estava grávida e, tal como ele, condenada a Auschwitz. Conversava com ela, evocava a sua imagem, e assim se mantinha vivo. Quando finalmente foi libertado, no fim da guerra, a mulher estava morta, tal como os pais e o irmão. No entanto, ele alimentara-se de outro sonho enquanto estava preso, e, este sim, viria a realizar-se: projetava-se no futuro, via-se a falar perante um público imaginário, e a explicar o seu método para enfrentar o maior dos horrores. E sobreviver. Viktor E. Frankl sobreviveu. E até morrer, aos 92 anos, divulgou por todo o mundo o método desenvolvido no campo de concentração - a Logoterapia.

O psicoterapeuta descobriu que os sobreviventes eram aqueles que criavam para si próprios um objetivo, que encontravam um sentido futuro para a existência - fosse ele, por exemplo, cuidar de um filho ou escrever um livro. Em O Homem em Busca de um Sentido, escrito em 1946, o autor narra na primeira parte a sua dramática luta pela sobrevivência. E na segunda, em breves páginas, sintetiza os mais de 20 volumes ao longo dos quais desenvolveu o seu método - aplicável a qualquer pessoa, em qualquer circunstância da vida.

Nem sempre a psicologia resolve problemas, mas na maior parte das vezes consegue identificá-los e ao identificá-los pode dirigir as (re)ações daqueles que deles sofrem.

Podemos identificar 3 partes nesta narrativa. Na primeira parte, Frankl relata a sua experiência num campo de concentração nazi. Sem ter uma linha de "Era uma vez... e "Fim", conseguimos estabelecer uma cronologia desde a entrada no campo à saída, à medida que várias situações são descritas e à forma como são descritas; a segunda parte tem um pouco de ensaio clínico, onde os vários perfis psicológicos são apresentados, desde a forma como se manifestam à forma como os "doentes" podem lidar com eles, enfrentando-os, não os resolvendo; na terceira parte, que eu pessoalmente, acho muito mais interessante, há uma identificação do perfil, da razão para esse perfil e da forma como o problema pode e deve ser solucionado, porque se identificou a dada altura. Esse é o método de Frankl.

O Homem em Busca de um Sentido, conforme diz Frankl mais do que uma vez, de várias formas, é a luta de qualquer Homem, mas é a única razão para, alguns Homens, sobreviverem fisica e psicologicamente.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

A Montanha Mágica

 

«Tal como em A Morte em Veneza, o protagonista de A Montanha Mágica empreende uma viagem que acaba por o levar para fora do espaço e do tempo da existência burguesa. Não por acaso, contrariando planos anteriores em que o romance abria com a explanação da biografia de Hans, depois remetida para o segundo capítulo, o primeiro capítulo centra-se na viagem e no primeiro momento de confronto com o mundo fechado do sanatório, o início do longo percurso de iniciação que irá constituir o fulcro da narrativa. O herói do romance, como surge repetidamente sublinhado, nada tem de excepcional, pelo contrário, a própria mediania da personagem constitui uma forma de acentuar de que modo ela representa paradigmaticamente a normalidade social. O fulcro do romance, está, justamente, no facto de essa normalidade ser totalmente posta à prova e problematizada nos seus fundamentos pelo confronto com o microcosmo do sanatório.»

Entre tantas capas que este livro tem, escolhi esta para partilhar, porque me toca de certa forma.

"O caminhante sobre um mar de nuvens" de Caspar David Friedrich, foi uma das obras que tive de analisar na cadeira de Correntes Estéticas.

O parar do tempo, representado por alguém que pára a sua caminhada e observa o que não se pode ver. De olhos expostos nas nuvens que lhe tapam a vista do que há mais abaixo mais abaixo, percebe-se pela forma como está vestido que não é um caminhante habitual e que aquele momento foi um acaso.


As páginas que li, deste livro, parecem indicar uma situação semelhante num local e num tempo diferentes. Hasn Gastorp foi visitar o primo a um sanatário nos Alpes Suíços e o que era apenas um passeio, acabou por se tornar uma paragem em que se encontrou mais do que se esperava e, mesmo assim, não se encontrou tudo.

Este resumo, abaixo, explica porque penso assim e porque vejo semelhanças com o quadro de Friedrich.

"Às vezes apontado como um livro sem enredo, a obra trata da história de um jovem estudante de engenharia naval, alemão de Hamburgo, chamado Hans Castorp. Ele visita o primo Joachim Ziemssen num sanatório destinado ao tratamento de doenças respiratórias localizado em Davos, nos Alpes suíços, pouco antes do começo da Primeira Guerra Mundial. Apesar de ser encaminhado ao sanatório apenas para uma visita e para tratar uma anemia, Hans Castorp vai aos poucos mostrando sinais de que tem tuberculose pulmonar e acaba estendendo sua visita ao sanatório por meses e anos, pois sua saída é sempre adiada por causa da doença.

Nesse período, Castorp, pouco a pouco, afasta-se da vida "na planície" e conquista o que chama de liberdade da vida normal. Desliga-se do tempo, da carreira e da família e é atraído pela doença, pela introspecção e pela morte. Ao mesmo tempo, amadurece e trava contato mais profundo com a política, a arte, a cultura, a religião, a filosofia, a fragilidade humana (incluindo a morte e o suicídio), o caráter subjetivo do tempo (um dos temas mais importantes da obra) e o amor."

Desde há muito tempo que queria ler este livro, requisitei-o à Biblioteca, numa altura em que, por azar, tive pouco tempo para o ler, porque outras atividades e outras leituras eram prioritárias e tive de o devolver acabado o prazo do empréstimo, mesmo depois de o renovar uma vez. Mas ainda hei de ir requisitá-lo de novo, para finalmente o ler todo, um dia.

Neste momento, se eu tivesse um espaço na minha biblioteca chamado TBR (To be read "Para ser lido") este livro estaria lá.