sexta-feira, 6 de março de 2026

O Prazer de Ler

 

(Pinterest)

Quase por acaso, passei por alguns dos meus trabalhos aquando da Licenciatura em Humanidades e gostei de reler um texto que fez parte de um deles para a cadeira "Teoria da Literatura". Gostei tanto que resolvi partilhar sem editar.

        "A literatura tem o poder de transformar o mundo dos que leem. Ler é mais do que aprofundar conhecimentos ou conhecer coisas diferentes. Ler é entrar em mundos diferentes e conhecer formas de estar e de sentir diferentes das nossas. Para que isso seja um facto na vida de cada leitor, é importante que os livros sejam lidos da primeira à última página; é importante que a vida de cada personagem se compare com a nossa e quanto mais diferente for de nós, mais nos enriquece; é necessário, se o livro não for um romance de personagem, que os espaços e os tempos nos cheguem em todo o esplendor da capacidade do seu autor. Mas para isso acontecer, é necessário ler. Nos vários graus de ensino escolares, a maior parte das obras são dadas a conhecer aos alunos, através de resumos ou de críticas a elas feitas. Uma crítica é importante para o entendimento da obra, se for feita pelo seu leitor, manifestando o que sente, o que desejou ler e não leu e até o que dispensava ter lido. Se não for assim, a crítica, é apenas o ponto de vista de alguém que leu, ou que em muitos casos, esteve em contacto com uma crítica anterior e se limitou a rebater ou a aceitar.

            Podemos, muitas vezes, ler e não concordar com a opinião do autor, com o ponto de vista ou com a forma como ele concluiu determinada obra. Mas se não lermos, os seus pensamentos, afetos, ódios ou desejos nunca chegarão até nós em primeira mão. E se isso não acontecer, a literatura não está a cumprir o seu papel de mudar o mundo (nem que seja apenas o nosso). Para que haja uma conexão com o mundo real, conforme Todorov nos diz, “é importante que a literatura seja o centro do processo educacional” (TODOROV, 2009:11). Se não for através dos programas escolares, a grande maioria dos jovens não vão nunca ter uma obra literária ao seu alcance. Com o desafio digital e virtual dos dias atuais, os livros são deixados em segundo ou terceiro plano ou até, em nenhum plano. Infelizmente, há jovens estudantes que nunca pegaram, para ler, num livro pelo simples prazer de ler. E ler deve ser, mais do que uma obrigação e uma forma de conhecer outros mundos, um prazer na vida, para a vida.

            Todorov diz-nos que a análise da estrutura ou composição de uma obra, “a nível de estilo, composição, formas narrativas, ou seja, a sua técnica literária” (ibidem 18) fez parte dos seus estudos e como ele, concordo que devem fazer parte do trabalho de um leitor, sim, mas apenas como meio auxiliar para entender o contexto social e até pessoal em que foi elaborada a obra. Até porque, com esses auxiliares chegaremos mais eficazmente ao âmago da questão: entender a obra no seu sentido psicológico conforme expresso pelo seu autor. E é esse entendimento que nos enriquecerá e nos fará apreciar o que lemos."

 Podemos adaptar esta ideia à leitura da Bíblia?

Atualmente, muita gente tem acesso à Bíblia e cada vez mais as redes sociais (Instagram, TikTok e afins) partilham pessoas com uma Bíblia na mão. A mostrar um unboxing de uma Bíblia nova e a partilhar os materiais que usam para marcar e escrever nas páginas da Bíblia. Em resumo, partilham o uso da Bíblia no seu dia a dia. E agora pergunto: Essa partilha é porque é moda ou trend, como se diz agora? É porque é bonito e digam o que disserem, a Bíblia como livro físico é maravilhosa? Ou, lê-se a Bíblia porque temos prazer de ler um livro onde Deus fala diretamente connosco? 

Aquela máxima de "A Bíblia é o único livro que quando lês estás na presença do Seu Autor" deveria er para nós uma verdade e deveria levar-nos a sentir prazer em escutar a Sua voz. Não é ouvir as opiniões de outros que leram, não é ouvir as críticas de alguns que nem leram. Isso não faz sentido e não nos enriquece em nada. 

Refaço uma das sentenças do texto acima: Ler a Bíblia deve ser, mais do que uma obrigação ou uma trend, deve ser uma forma de conhecer outras pessoas, outras histórias, contadas por Aquele que conhece o coração do homem, deve ser um prazer na vida, para a vida.

Recomendo!


Lições de Química

 

Elizabeth Zott não é uma mulher comum. Aliás, Elizabeth Zott seria a primeira a dizer que a mulher comum não existe. Mas estamos no início dos anos sessenta e a sua equipa de trabalho no Instituto de Pesquisa Hastings é exclusivamente masculina. Elizabeth pode ter sido uma das melhores alunas do curso de Química (foi), mas todos os colegas esperam que seja ela a ir buscar cafés ou fazer fotocópias (não será). Há, porém uma exceção: Calvin Evans, um jovem brilhante que se apaixona por ela. Entre eles, a química é a sério.

Mas tal como na ciência, a vida nem sempre segue uma linha reta. Anos mais tarde, Elizabeth é mãe solteira e a estrela relutante do programa de culinária mais amado da América, o Jantar às Seis. A sua abordagem à cozinha é extravagante ("combine uma colher de sopa de ácido acético com uma pitada de cloreto de sódio") e revolucionária (mais do que apresentar receitas, ela está a incentivar um número crescente de mulheres a desafiar o mundo). A sua popularidade irrita muita gente.

Longe dos holofotes, Elizabeth também usa a ciência para alimentar o corpo irrequieto e a mente subversiva da filha de quatro anos, Madeline, bem como o espírito crítico de Seis e Meia, o cão. Mas o seu destino parece eternamente adiado. Conseguirá ela cumprir o que em tempos um grande amor profetizou num sussurro?

Elizabeth Zott, ainda vais mudar o mundo.


Confesso que li este livro porque vi um trailer do filme adaptado em 2023 com o nome "Uma Questão de Química" e amei uma das partes apresentadas. Como defendo, um livro é sempre melhor do que um filme, optei por ler o livro em vez de ver o filme. A cena que me incentivou não existe no livro, mas não precisa, pois não se perde nada.

A narrativa não segue sempre uma ordem cronológica e tem pelo meio factos do passado de alguns dos personagens narrados como se estivessem a acontecer naquele preciso momento da narrativa. E estão de tal maneira bem "encaixados" na linha temporal que não nos perdemos na ordem da ação.

A personagem de Elizabeth estala como uma chicotada na mente dos anos sessenta, quando apenas se via a mulher como doméstica bem comportada e submissa. Elizabeth, mau grado os caminhos da vida e os rótulos que lhe põem por ser mãe solteira, é bem comportada mas não é nem doméstica e nem submissa. E luta pelos seus direitos da forma que pode, aproveitando oportunidades que nem sempre são as que desejava ou esperava.

Uma história interessante apresentada com uma narrativa muito fluída e os diálogos muito bem conseguidos fazem deste livro um "Recomendo"!


O Homem em Busca de um Sentido

 


Nos seus momentos de maior sofrimento, no campo de concentração, o jovem psicoterapeuta Viktor E. Frankl entregava-se à memória da sua mulher - que estava grávida e, tal como ele, condenada a Auschwitz. Conversava com ela, evocava a sua imagem, e assim se mantinha vivo. Quando finalmente foi libertado, no fim da guerra, a mulher estava morta, tal como os pais e o irmão. No entanto, ele alimentara-se de outro sonho enquanto estava preso, e, este sim, viria a realizar-se: projetava-se no futuro, via-se a falar perante um público imaginário, e a explicar o seu método para enfrentar o maior dos horrores. E sobreviver. Viktor E. Frankl sobreviveu. E até morrer, aos 92 anos, divulgou por todo o mundo o método desenvolvido no campo de concentração - a Logoterapia.

O psicoterapeuta descobriu que os sobreviventes eram aqueles que criavam para si próprios um objetivo, que encontravam um sentido futuro para a existência - fosse ele, por exemplo, cuidar de um filho ou escrever um livro. Em O Homem em Busca de um Sentido, escrito em 1946, o autor narra na primeira parte a sua dramática luta pela sobrevivência. E na segunda, em breves páginas, sintetiza os mais de 20 volumes ao longo dos quais desenvolveu o seu método - aplicável a qualquer pessoa, em qualquer circunstância da vida.

Nem sempre a psicologia resolve problemas, mas na maior parte das vezes consegue identificá-los e ao identificá-los pode dirigir as (re)ações daqueles que deles sofrem.

Podemos identificar 3 partes nesta narrativa. Na primeira parte, Frankl relata a sua experiência num campo de concentração nazi. Sem ter uma linha de "Era uma vez... e "Fim", conseguimos estabelecer uma cronologia desde a entrada no campo à saída, à medida que várias situações são descritas e à forma como são descritas; a segunda parte tem um pouco de ensaio clínico, onde os vários perfis psicológicos são apresentados, desde a forma como se manifestam à forma como os "doentes" podem lidar com eles, enfrentando-os, não os resolvendo; na terceira parte, que eu pessoalmente, acho muito mais interessante, há uma identificação do perfil, da razão para esse perfil e da forma como o problema pode e deve ser solucionado, porque se identificou a dada altura. Esse é o método de Frankl.

O Homem em Busca de um Sentido, conforme diz Frankl mais do que uma vez, de várias formas, é a luta de qualquer Homem, mas é a única razão para, alguns Homens, sobreviverem fisica e psicologicamente.