Quase por acaso, passei por alguns dos meus trabalhos aquando da Licenciatura em Humanidades e gostei de reler um texto que fez parte de um deles para a cadeira "Teoria da Literatura". Gostei tanto que resolvi partilhar sem editar.
"A literatura tem o poder de transformar o mundo dos que leem. Ler é mais do que aprofundar conhecimentos ou conhecer coisas diferentes. Ler é entrar em mundos diferentes e conhecer formas de estar e de sentir diferentes das nossas. Para que isso seja um facto na vida de cada leitor, é importante que os livros sejam lidos da primeira à última página; é importante que a vida de cada personagem se compare com a nossa e quanto mais diferente for de nós, mais nos enriquece; é necessário, se o livro não for um romance de personagem, que os espaços e os tempos nos cheguem em todo o esplendor da capacidade do seu autor. Mas para isso acontecer, é necessário ler. Nos vários graus de ensino escolares, a maior parte das obras são dadas a conhecer aos alunos, através de resumos ou de críticas a elas feitas. Uma crítica é importante para o entendimento da obra, se for feita pelo seu leitor, manifestando o que sente, o que desejou ler e não leu e até o que dispensava ter lido. Se não for assim, a crítica, é apenas o ponto de vista de alguém que leu, ou que em muitos casos, esteve em contacto com uma crítica anterior e se limitou a rebater ou a aceitar.
Podemos, muitas vezes, ler e não concordar com a opinião do autor, com o ponto de vista ou com a forma como ele concluiu determinada obra. Mas se não lermos, os seus pensamentos, afetos, ódios ou desejos nunca chegarão até nós em primeira mão. E se isso não acontecer, a literatura não está a cumprir o seu papel de mudar o mundo (nem que seja apenas o nosso). Para que haja uma conexão com o mundo real, conforme Todorov nos diz, “é importante que a literatura seja o centro do processo educacional” (TODOROV, 2009:11). Se não for através dos programas escolares, a grande maioria dos jovens não vão nunca ter uma obra literária ao seu alcance. Com o desafio digital e virtual dos dias atuais, os livros são deixados em segundo ou terceiro plano ou até, em nenhum plano. Infelizmente, há jovens estudantes que nunca pegaram, para ler, num livro pelo simples prazer de ler. E ler deve ser, mais do que uma obrigação e uma forma de conhecer outros mundos, um prazer na vida, para a vida.
Todorov
diz-nos que a análise da estrutura ou composição de uma obra, “a nível de
estilo, composição, formas narrativas, ou seja, a sua técnica literária”
(ibidem 18) fez parte dos seus estudos e como ele, concordo que devem fazer
parte do trabalho de um leitor, sim, mas apenas como meio auxiliar para
entender o contexto social e até pessoal em que foi elaborada a obra. Até
porque, com esses auxiliares chegaremos mais eficazmente ao âmago da questão:
entender a obra no seu sentido psicológico conforme expresso pelo seu autor. E
é esse entendimento que nos enriquecerá e nos fará apreciar o que lemos."