terça-feira, 30 de junho de 2026

Ficção vs realidade

 

(Pinterest)

Já não é a primeira vez que confesso que leitura e escrita sempre fizeram parte da minha vida, de alguma forma. Desde que aprendi a escrever e a ler achava interessante escrever mini contos e ilustrá-los e lia os livros que apanhava em casa, que eram de bibliotecas itinerantes (infelizmente desaparecidas), que por sorte os meus pais frequentavam. Aos onze ou doze anos li um livro cujo enredo e conclusão não entendi e não aceitei, respetivamente. E que, pela segunda razão, me fez desejar criar um final alternativo. No mesmo momento achei que seria uma tarefa inglória e isso me levou a desejar escrever o meu próprio livro, à minha vontade, com o enredo e as personagens a meu gosto.


E passei, assim, a escrever contos mais ou menos extensos, que apenas tinham direito a ser lidos por alguns amigos mais chegados, até à altura em que me atrevi a publicar; e, assim, entre publicações em editoras virtuais e edições físicas reuni uma série de "obras" que fazem parte de um espólio que muito acarinho e que não tem mais valor do que aquele que eu lhe dou.

Mas não é este o motivo desta publicação. 

Houve alturas em que me perguntei, será a criação de realidades ficcionais uma boa ideia para quem tem como maior realidade uma esperança na Volta de Jesus, mesmo que isso, para muitos, seja apenas ficção? 

Quando crio uma personagem e um enredo ficcional, queira ou não, há sempre um "cheirinho" daquilo em que acredito pelo meio da narrativa e dos diálogos. E não precisam de tratar diretamente disso. Creio eu que é isso que me mantém lúcida e realista em meio à ficção criada. Ou seja, alguém que vá ler um dos contos, lê apenas uma história em que pode acreditar ou não e que pode gostar muito, pouco ou nada. Se não crê em mais nada, além desta realidade de vida, o conto não lhe causa qualquer transtorno, seja pura fantasia ou não. Se quem lê, crê em algo mais além desta vida, pode considerar uma afronta esse tipo de fantasia. São factos. E como se diz, contra factos não há argumentos. E muitas vezes, anos atrás, este segundo facto alcançava-me assim como uma auto crítica - será uma afronta este tipo de fantasia? E quando lia alguns contos escritos anos antes, tinha a certeza que os escreveria de outra forma, com outro enredo e outra conclusão.

Mas, alguns anos passados, depois de escrever esses contos e de driblar essas dúvidas, assentei. Tenho consciência de que a fantasia não passará disso e que não deve passar disso, mas também tenho a certeza de que partes da narrativa e dos diálogos, como já disse, me dirigem para as minhas crenças. E se as coisas nos dirigem para aquilo em que cremos e não nos tiram o foco dessa realidade, haverá algum problema em ler ou escrever ficção?

Muitos contos ou romances, chamados cristãos, são fantasia. Dirigem os leitores para a fé e para Cristo, através de uma narrativa ficcional. Mas o que dizer daqueles que não são romances cristãos? Aqueles que se limitam a narrar quaisquer histórias de personagens e ações e que nunca falam de Cristo? Podem fazer o mesmo?

Acabei de ler um desses, esta semana. Por vezes, gosto de reler alguns dos meus contos e foi o que fiz. E ao ler, dei-me conta de em alguns momentos da narrativa da ação, apesar de ficcional como ela é, nos diálogos e pensamentos dessas personagens vem à superfície a necessidade e a crença em algo maior, algo melhor, que nos console, nos sustente e nos oriente. E é nas suas ações ou reações que compreendemos essa necessidade quando resulta num abandono no momento. Um abandono de uma força própria que naquele momento não faz sentido e nem resulta e a sua troca por uma submissão consciente como única esperança para ultrapassar momentos específicos.

E o curioso, e onde eu queria chegar, é que,  num mundo de realidades onde nos é pedido uma força que nem sempre temos para lidar com situações que nos afligem, e que muitas vezes nos levam a procurar literatura escapista, o que temos a fazer é abandonar essa força própria e trocá-la pela submissão consciente e total Àquele que é o Único que nos pode fazer ultrapassar esses momentos.

E, há várias formas...

Na angústia invoquei ao Senhor, e clamei ao meu Deus; desde o seu templo ouviu a minha voz, aos seus ouvidos chegou o meu clamor perante a sua face. Salmo 18:6

“Lancem sobre ele toda sua ansiedade, porque ele tem cuidado de vocês.” (1 Pedro 5:7).


Sobre o assunto nesta mensagem gostaria de partilhar um artigo publicado em 2023 no Jornal da Educação Adventista, influenciado por alguns escritos, dos quais também partilho um capítulo de um livro da escritora americana Ellen White sobre "Livros de Ficção (...)"








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