segunda-feira, 27 de abril de 2026

O Paraíso Perdido (2ª parte)

 


Há muitos mais, que gostaria de partilhar, mas para já, apenas este trechos:

                                                        "Quer seja p’ra depor o rei do Céu

Sendo a força o ideal, quer p’ra reaver

Um direito de lei, p’ra destroná-lo

Só esperando um lapso da presciência

Num ataque casual, sendo o Caos +arbitro:

Vã crença no primeiro atesta vão

O segundo. Que pouso haverá p’ra nós

No umbigo do Céu, se o dono supremo

Não vencermos? Suponham que ele afrouxa

E publica geral graça, sob jura

De nova sujeição; e nós, que cara

Seria a nossa lá, baixando olhos,

Catando à força estritas leis, louvando-o

No trono entre um chilreio de hinos, coros

De aleluias forçados, invejando-o

Ao sentar-se senhor supremo, de ara

Golfando odor de ambrósia, das ambrósias...

 

Nossa oferta servil. Esta a tarefa

No Céu, nosso deleite; que enfadonho

Eterno gasto em pagas de louvor

A quem se odeia. Não busquemos, pois,

Por força obstante, por licença obtida,

O inaceitável grau, no Céu embora,

De vassalagem esplêndida, mas antes

O nosso bem em nós, e de nós próprios

E vamos p’ra nós, mesmo em vasto ermo

Livres, sem dar conta a quem, amando

Árdua soltura mais que o suave jugo...

 

Té que avidez e orgulho me abateram

Em guerra no Céu contra o rei sem par.

Ah, porquê? Troco assim não merecia

De mim, a quem à luz da iminência

Deu o ser, e com seu bem a ninguém

Exprobrou. Nem custoso foi servi-lo,

Que outra coisa a fazer que não louvá-lo,

Recompensa normal, e dar-lhe graças,

Quão devidas! Mas todo o bem foi mal

Em mim, e só maldade fez. Tão alto

Erguido desdenhei da submissão,

E achei que um degrau mais me elevaria,

E a dívida quitei da gratidão

Sem fim, tão alto preço sempre pago,

Sempre a dever, esquecido do que dele

Sempre obtive...

 

Duas das mais distintas formas, altas

E erecta, como Deus, com honra indígena

Vestida em nudez real de tudo

Pareciam reis, e dignos, pois nos rostos

Divina a imagem, tinham do criador,

Verdade, sabedoria, santidade

Pura e grave, mas posta em liberdade

Filial; no homem daí a autoridade.

Mas um para sem par, tal como os seus sexos

Par e ímpar são; p'ra planos ele e arrojo,

P'ra dulçor ela e graça que cativa;

Ele por Deus só, ela por Deus nele:

(..) Em sujeição, rogada por bom mando,

Por ela entregue e nele mais aceite,

Entregue em submissão, brio modesto,

E em mora de amor doce e relutante.



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