sexta-feira, 23 de setembro de 2022

Restauro da BÍblia

Em vez de usar a preposição "de" como costumo fazer neste tipo de título optei por a contrair com o artigo "a" porque esta Bíblia que foi restaurada é A minha bíblia!

Não é a minha primeira, não é a única e não será a última, mas tenho uma grande estima por ela. Tenho esta bíblia desde 2013, com muito uso, pois é a minha bíblia de estudo do dia a dia, onde anoto e marco os assuntos e por esse uso continuado, a capa não se aguentou e começou a desfazer.




Durante os últimos dois anos, mantive-a tal como estava, protegida por capas várias amovíveis, em EVA e tecido porque a estrutura estava tão boa que me custava ir separar a capa do miolo para fazer uma nova.
Este ano estando na hora de trocar de capa, enquanto tentava deciddir que capa seria desta vez,alguém me deu a ideia de, para não desmontar a bíblia, e não ter de a andar a mudar de capa tanta vez, colar uma capa personalizada sobre a sua capa de origem.
Pensei no assunto e escolhi o motivo da capa que vi por essa internet há algum tempo. Preparei as medidas, preparei a capa e quando a tinha cortada e montada, fiquei com receio de que todo o trabalho tido com essa "construção" fosse perdido quando a colasse na capa original que era flexível e começasse a arrebitar nas pontas.
Foi nessa altura que fiz o que devia ter feito há muito tempo.

E custou-me bastante fazê-lo. Separei a capa do miolo.

Cortei uma capa à medida, em cartão, forrei com a imagem escolhida e eis aqui o resultado final.




Passou de bíblia com capa flexível a bíblia com capa rígida que era o que eu não queria que acontecesse, mas aconteceu e estou a gostar.


"Eis que o Leão da tribo de Judá, a Raíz de Davi, venceu para abrir o livro e os seus sete selos".
Apocalipse 5:5


sexta-feira, 16 de setembro de 2022

Restauro de bíblia

 Já há algum tempo que não restaurava uma bíblia. Já tinha esta comigo há quase dois anos, mas com a pandemia e afins foi atrasando e saiu este ano.

Esqueci de fotografar o antes, por isso ficamos apenas com o depois.

A dona queria a capa em tecido e com cores fortes. Foi amor à primeira vista e assim que este surgiu não foi preciso escolher mais.


Tentei que as fitas combinassem com o padrão e cores, mas que uma delas, pelo menos, aligeirasse os tons.


Gostei tanto do padrão que o fotografei para criar papel estampado e fazer uns acessórios.
Um bloco de notas e um marcador.






quinta-feira, 25 de agosto de 2022

Porque Deus não atende minha oração?

 

Sejamos crentes em cada poro do nosso corpo ou crentes apenas de nome, muitos de nós já nos perguntámos alguma vez porque é que Deus não responde às nossas orações.

Vi este artigo no blogue MEGAPHONE e achei que seria interessante partilhar.


Por que Deus não responde à oração é uma questão tão antiga quanto o princípio do mal. Quando o pecado surgiu, ele nos separou da presença de Deus e consequentemente das respostas diretas de Deus. Desde Abel que morreu provavelmente perguntando “Por quê Senhor?" ou mesmo Moisés que pediu para entrar na terra prometida e o pedido lhe foi negado. Davi passou uma semana orando por seu filho recém-nascido que veio a morrer. Santo Agostinho pedia em oração, quando criança, que os professores não lhe batessem, mas continuava apanhando na escola.

E você? Você acreditou. Teve fé. Concentrou todo o poder de seu pensamento positivo (como se houvesse algo de sobrenatural nele). Acima de tudo, você orou para que o mais desejado pedido do seu coração fosse satisfeito. Resultado: nada. Deus não “moveu um dedo” para concretizar seu sonho. A frustração parece ser maior quando você escuta relatos incríveis de respostas à oração. A pergunta que fica é: “Será que isso só acontece com os outros?”

Se você pensa assim, a Bíblia tem resposta para esse dilema. Mesmo sabendo que Jesus garantiu “peçam, e lhes será dado” (Mt 7:7), devemos entender que há situações em que Deus não atua, para nosso bem e do Universo que Ele governa. Deus tem condições para atender nossas orações. E os critérios dele são mais justos do que os nossos. Conheça alguns deles: 

(1) Pedir especificamente. Não faça uma oração genérica do tipo “abençoa minha vida, amém!”, mas seja específico em seus pedidos (Tg 4:2). Ellen G. White diz: "Vossas petições não devem ser débeis, ocasionais e apressadas, mas fervorosas, perseverantes e constantes. Que vosso coração se eleve de contínuo, em silêncio, pedindo auxílio, luz, força, conhecimento. Que cada respiração seja uma oração" (A Ciência do Bom Viver, p. 510);

(2) Orar com frequência (Lc 18:1-7). Tem gente que fala com Deus como se estivesse solicitando um serviço de delivery. Só que o Pai deseja passar tempo de qualidade em conversas descontraídas e amigáveis com seus filhos. Quem costuma ouvir a voz de Deus, sabe melhor o que pedir. Ellen White afirma: "A perseverança na oração é também uma condição para ser ela atendida. Devemos orar sempre, se quisermos crescer na fé e experiência” (Caminho a Cristo, p. 97); 

(3) Pedir certo (Tg 4:3; 1Jo 5:14). Deus não atende orações que contrariam seus propósitos de amor para o ser humano, como os pedidos egoístas. Talvez Ele não lhe dê um dia de sol para ir à praia, porque precisa mandar chuva para o agricultor que depende da colheita. Porém, se pedir aquilo que Ele já prometeu, o “sim” é garantido (2Co 1:20). Por isso, conheça e reivindique as promessas bíblicas, entre em sintonia com a vontade de Deus (Pv 28:9), e peça, sobretudo, a orientação e a transformação que vem por meio do Espírito (Lc 11:13). Ellen White adverte: "Somos tão falíveis e curtos de vistas que às vezes pedimos coisas que não nos seriam uma benção, e nosso Pai Celestial amorosamente nos atende às orações dando-nos aquilo que é para o nosso maior bem – aquilo que nós mesmos desejaríamos se com vistas divinamente iluminada, pudéssemos ver todas as coisas tais como elas são na realidade" (Caminho a Cristo, p. 96).

Ellen White conclui: "Quando nossas orações ficam aparentemente indeferidas, devemos apegar-nos à promessa; pois virá por certo a ocasião de serem atendidas, e receberemos a bênção de que mais carecemos. Mas pretender que a oração seja sempre atendida exatamente do modo e no sentido particular que desejamos, é presunção. Deus é muito sábio para errar, e bom demais para reter qualquer benefício dos que andam sinceramente. Não receeis, pois, confiar nEle, ainda que não vejais a resposta imediata às vossas orações. Apoiai-vos em Sua segura promessa: 'Pedi, e dar-se-vos-á' (Mateus 7:7)".

Não sei lhe dizer por que Deus não responde às vezes a oração, mas sei, por experiência própria, que quando isso acontece Ele continua me amando. Quais são suas dúvidas e lágrimas, perguntas e questionamentos? Ouça Deus lhe dizendo hoje: Vinde e arrazoemos, vamos conversar, questione, duvide, mas não se afaste de mim. Não desista e permaneça firme até o dia em que Ele responderá todas as dúvidas e enxugará todas as lágrimas.

sexta-feira, 22 de julho de 2022

Junk Journal II

Um diário da tralha, traduzido à letra, é um livro ou caderno montado com todos os materiais que se queiram usar, com o intuito de servir para arquivar "memórias" em forma de fotos, desenhos, cartões, postais, cartas, envelopes, bilhetes, etc, que se podem guardar colando, pintando, cosendo ou metendo em envelopes e recortes.

Não exigem que as folhas sejam todas do mesmo material ou do mesmo tamanho, nem do mesmo feitio e a ideia é usar o que houver à mão.

Podem ser montados colados, cosidos ou apenas atados à capa que vai guardar as folhas a usar, ou utilizar um dossier de argolas já existente para esse fim. O seu embelezamento fica por conta da nossa imaginação e do nosso gosto.

Lembro que um junk journal (diário da tralha) também se pode chamar de scrap journal (diário de recortes ou retalhos) e de smash journal (diário onde se atafulha).

Há sete anos fiz um.



Foi um trabalho básico. Forrei duas placas de cartão que uni com duas argolas soltas e fui arquivando o que andava espalhado por gavetas (postais, desenhos dos filhos quando crianças, etc). Não foi nada de especial, mas gosto muito de ter tudo arrumadinho num sitio e que esse sitio seja um livro.

E agora chegou a altura de pegar em tudo o que de papel anda espalhado lá por casa, de novo, e meter mãos à obra. E ideias e tutoriais para trabalhos mais complexos e mais interessantes não faltam.
O próximo projeto será algo como isto 


E a razão desta publicação que na realidade não tem nada de novo, é que está aproximar-se o período das férias e já que este ano não vou pintar armários de cozinha, tenho de fazer qualquer coisa de arte. E existe melhor arte que a que envolve livros?











sexta-feira, 24 de junho de 2022

Fanny Owen

 


Fanny Owen é a história de um amor proibido entre José Augusto, jovem rico herdeiro das vinhas do Douro e amigo de Camilo Castelo Branco (que é também um dos personagens centrais deste livro) e Fanny Owen, filha do General Owen, um dos conselheiros do Rei, por quem Camilo tem também uma profunda paixão. Tudo isto na sociedade burguesa oitocentista portuense, com algumas viagens regulares ao Douro vinhateiro e ao Minho.

Poderemos considerar este romance como um "romance de personagem", o seu nome assim nos leva a essa conclusão, mas, no entanto, os personagens mais presentes, do início ao fim, são José Augusto e Camilo Castelo Branco. Fanny é a razão para o nome e para toda a situação que este romance narra, mas quanto a mim, não é o assunto principal do romance.

Também podemos considerar este, como um romance de espaço. Está dividido em três partes, devido aos locais onde a ação se passa e cada um deles a par da descrição feita pela autora, é-nos descrito sob o ponto de vista de Camilo, quando está presente.

Considerado a história de um triangulo amoroso, pelo relacionamento e a paixão de Camilo por Fanny no momento em que José Augusto decide (ou é levado a decidir) que a ama e a quer, se o fosse, rompeu-se esse triângulo quando Camilo diz a José Augusto que deixou de amar Fanny e lhe pede que ele se afaste dela, porque a vai destruir.

Este romance é uma narrativa da vida social da burguesia, nos finais do séc. XIX que nos conta os amores infelizes (ou funestos) das três personagens: José Augusto que se volta para Fanny porque a entrega e admiração de Maria por si o enfadava e retirava a vontade de a amar; Fanny que cansada da vida na casa paterna e desejosa de amar convence José Augusto a raptá-la para escapar; e Camilo que confessa que a amou a dada altura mas que o amor deles não passou de um "amor epistolar", em cartas que entrega a José Augusto no dia do casamento deste com Fanny.

Por isso, ou porque de facto o amor nunca existiu entre os dois, a vida do casal vai ser dor e desencanto apesar da obsessão de um pelo outro, nem que fosse pelo simples facto de existirem e estarem juntos.

No entanto, e aqui a minha singela opinião que como todas as opiniões pessoais, vale o que vale, este é um romance que versa sobretudo sobre o relacionamento de dois homens completamente diferentes um do outro e que a vida se encarrega de por frente a frente e sujeitá-los aos seus constrangimentos.

José Augusto é um pseudo poeta, fidalgo, com uma forma de estar que não é recomendável desafiar, pelo seu feitio sisudo e pouco dado a manifestações de simples alegria. Camilo por sua vez é um verdadeiro poeta, com uma história familiar muito própria e algo devassa. Os encontros entre os dois nem sempre terminam da melhor maneira, no entanto, acabam sempre por se reencontrar e desejarem redimir-se dos males que se tenham causado. A tal ponto, o relacionamento é importante para eles que mesmo quando Fanny pede a José Augusto que se afaste de Camilo porque a relação entre os dois, alimenta uma prossível traição de José Augusto com uma amiga dos dois homens, José Augusto não o faz.

Não é um relacionamento de amor eros que os une, mas um amor agape ou phillia, alimentado pelas diferenças entre os dois, como se só com esse relacionamento se completassem. Como se a falta de um provocasse no outro a falta de algo maior.

A narrativa de Agustina Bessa-Luís é detalhada e demorada e faz-nos perder nos meandros dos espaços e da ação, com a demora que pode em alguns casos aborrecer um leitor que espere ação no verdadeiro sentido da palavra. É para ler sem pressa e deixar que o ambiente e a realidade oitocentistas nos envolvam. A última parte, as cenas entre José Augusto e Fanny são sobremaneira demoradas e como se repetidas, mas ajudam-nos a entender o sentimento de cada um deles. Percebemos que amam sem se amarem um ao outro e que a rutura provocada com a morte de Fanny, é ainda assim fatal para José Augusto. É Camilo quem nos conta pelas palavras da autora.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

Segredo Mortal

Nota 1: Poderia não fazer esta publicação, dado o panorama de guerra em que vivemos, como se fosse aqui à porta, porque a guerra seja onde for toca todos onde quer que estejam. Mas também resolvi que o faria porque felizmente (para alguns) o mundo com as suas rotinas continua.



Sinopse

UM PROJETO SECRETO. UM ASSASSINO CONTRATADO. UM HOMEM ACUSADO DE CRIMES QUE NÃO COMETEU.

Na véspera de Natal, cheias massivas submergem o centro de Lisboa, causando danos incalculáveis e centenas de mortes. Designada por Desastre de Lisboa, a catástrofe é atribuída ao aquecimento global. Mas terá resultado realmente das alterações climáticas?

Um cenário aterrador é descoberto numa praia. Chamados a intervir, Leonardo Rosa e Marta Mateus, inspetores da Polícia Judiciária, deparam-se com a mais tortuosa perversidade: Um puzzle humano.

Iniciando uma caça ao homem, descobrem o perfil de um assassino, perigoso e inteligente, que desafia as capacidades dos inspetores. Assombrado pelos seus próprios fantasmas, Leonardo Rosa terá de ultrapassar barreiras para conseguir chegar à verdade: A descoberta de um segredo incrível.

Entretanto, um jovem recém-licenciado é acusado de dois crimes que ele jura não ter cometido. Encurralado, decide fugir e provar a sua inocência, mas logo se envolve numa teia de acontecimentos que o leva a uma conclusão terrível: Matar é a única forma de sobreviver.

Em busca de justiça e da verdade, vários acontecimentos sangrentos levam os inspetores e o jovem a embrenharem-se na maior conspiração de todas. Conseguirão sair dela vivos?

Sobre o autor posso dizer que o conheci há 7 anos. Ou melhor, que o li pela primeira vez há 7 anos, no seu livro "Contagem Decrescente" e que a publicação de mais este livro "Segredo Mortal" é a confirmação de que temos bons autores, na maior parte das vezes desconhecidos do público que por "comodismo" ou "segurança" não se "atrevem" a conhecer o que é novo. E ao fazê-lo abdicam do que há de novo no mundo da narrativa de ficção.

Desde aquela leitura, tenho seguido o autor através do seu instagram e blogue e foi com muito gosto que tive acesso a este livro e que confirmei o que já sabia. Vale a pena ler Bruno Franco.

Agora passemos à "crítica" propriamente dita que é para isso que decidi fazer esta publicação.

Se ficção policial não fosse da minha preferência poderia muito passar a ser depois de ler este livro. A ação não pára em momento nenhum do livro, nem mesmo quando as cenas são descritas com tais detalhes que poderíamos correr o risco de esquecer o que nos fez chegar ali. Mas não esquecemos, porque a riqueza desse mesmo detalhe, presente em quase toda a narrativa, nos mantém alerta e na expetativa.

Como pseudo-escritora que me considero, é sempre um desafio ler um autor que pela forma despreconceituosa e natural com que se apresenta a nós (leitores, seguidores, o que queiram chamar) através das suas redes sociais, nos transmite a sensação de que o conhecemos pessoalmente e nos sentimos à vontade para dizer em voz alta o que pensamos. E pensamos bem, mesmo que possamos apontar uma ou outra situação que não foi exatamente ao encontro da nossa maneira de escrever, porque é por isso mesmo que o mundo é diversidade e cada escritor tem a sua própria maneira de escrever e de contar as coisas.

Eu não usaria tanto detalhe em algumas situações narradas, mas como já disse, são os detalhes que enriquecem cada uma e nos prendem. É por isso que uns têm livros editados e outros nem por isso (brincadeira à parte). E só tive pena que um pequenino desses detalhes de que gostei muito de ler nas primeiras páginas não tivesse sido usado mais para a frente. Quando o autor diz que Leonardo Rosa (o inspector) guardou aquele momento ou aquele pensamento e o prendeu com um pionais no quadro da sua mente para usar mais tarde, é um facto que usou a lembrança desse pensamento, mas teria sido interessante que o autor se referisse a isso fazendo menção ao pionais e ao quadro onde tinha sido afixado. É uma irrelevância face ao todo, mas é uma irrelevância de que senti falta e gostaria de ter reencontrado.

Para terminar e para explicar o porquê da ação não parar um momento, não é só por o autor saber "fazer render" porque sabe, é que quando achamos que está tudo a ser explicado e concluído, Bruno Franco pega num "detalhezinho" que nos passou ao lado e que só damos conta da sua importância quando ele o usa como impulso para a continuação do enredo e não deixa a conclusão chegar, porque afinal há mais.

E isso é uma mais-valia para nós leitores, quando temos um livro de quase 500 páginas e não queremos "palha" mas narrativa e ação a sério. E Bruno Franco dá-nos isso mesmo da primeira à ultima página e de tal maneira que o fim não é realmente o fim, e isso nos irrita, mas também desafia e nos faz aguardar com expetativa o próximo livro.

Por tudo o que aqui partilhei e pelo que não partilhei reforço: leiam Bruno Franco.

Nota 2: Face ao panorama de guerra, conforme nota inicial desta publicação e depois de ler este livro, quero deixar duas perguntas:

- Em que difere un Putin ditador, autoritário, desejoso de poder e sem respeito pelos direitos humanos que sob a propaganda mentirosa de defesa do seu país ataca outro, de um psicopata que sob a justificação de trabalho encomendado tem prazer em mutilar e esquartejar gente que nunca conheceu?

- Como pode o Homem desejar contribuir conscientemente para o aumento do mal neste mundo, se o mal nos espreita a cada passo que damos, sem necessidade da nossa colaboração?


quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

RÚSSIA, UCRÂNIA E A CONTENÇÃO DIVINA

 Esta publicação não é de minha autoria. Pertence a MEGAPHONE ADV


Explosão é vista na capital ucraniana de Kiev
Após dias de escalada de tensão e ameaças, a Rússia de Vladimir Putin atacou a Ucrânia nas primeiras horas desta quinta-feira (24).

Pouco depois de Putin ter autorizado, em pronunciamento pela TV, uma operação militar nas regiões separatistas do leste da Ucrânia, explosões e sirenes foram ouvidas em várias cidades do país, segundo relatos de repórteres da CNN. A Ucrânia informou que pelo menos 50 pessoas morreram.

Em seu pronunciamento, Putin justificou a ação ao afirmar que a Rússia não poderia “tolerar ameaças da Ucrânia”. Putin recomendou aos soldados ucranianos que “larguem suas armas e voltem para casa”. O líder russo afirmou ainda que não aceitará nenhum tipo de interferência estrangeira.

Kiev tem congestionamentos, corrida aos mercados e estações de trem lotadas. ONU pede que Putin recue, e o presidente americano Joe Biden diz que a Rússia escolheu uma guerra de perdas catastróficas. E o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, disse em pronunciamento que a Rússia pode iniciar "uma grande guerra na Europa" a qualquer momento, e pediu aos russos que se oponham ao conflito.

Contenção divina
Segundo as profecias, o destino da Terra não está sujeito à boa-vontade de líderes humanos. O Soberano do universo intervém para conduzir o mundo a um desfecho específico. Quando parece que os povos vão se destruir, Deus age para contê-los. No Apocalipse, isso é representado pela imagem de quatro anjos segurando os quatro ventos do céu (Apocalipse 7:1).

A chave para se compreender essa simbologia está no sexto selo (Apocalipse 6:12-17). Nessa seção, fala-se de eventos cataclísmicos, que culminam no recolhimento das nuvens e a fuga dos “reis da terra” e de “todo escravo e todo livre”, que se abrigam “nas cavernas e nos penhascos dos montes” (ou seja, refere-se aos “eventos finais que conduzirão para a segunda vinda de Cristo”).[1] Pedem que os montes e rochedos caiam sobre eles e os escondam “da face daquele que se assenta no trono e da ira do Cordeiro”. E a seção termina com uma pergunta contundente: “chegou o grande Dia da ira deles e quem é que pode suster-se?” (v. 17).

O capítulo 7, que constitui um parêntese entre o sexto e o sétimo selos, parece responder à pergunta feita em 6:17. Nele, apresentam-se “quatro anjos em pé nos quatro cantos da terra, conservando seguros os quatro ventos da terra, para que nenhum vento soprasse sobre a terra, nem sobre o mar, nem sobre árvore alguma” (Apocalipse 7:1). Na Bíblia e no simbolismo apocalíptico, o número quatro representa as quatro direções (norte, sul, leste e oeste), transmitindo a ideia de uma abrangência global, a totalidade do mundo (1Crônicas 9:24; Isaías 11:2; Jeremias 49:36; Ezequiel 7:2; Zacarias 2:6).

Os quatro anjos representam “os agentes divinos no mundo, retendo as foças do mal até que a obra de Deus no coração dos seres humanos seja concluída e o povo do Senhor receba o selo na testa”.[2] Assim como as casas dos israelitas foram marcadas com sangue para serem protegidas antes da última praga e do próprio êxodo, e algo semelhante tenha ocorrido no tempo do exílio (Ezequiel 9:1-11), no tempo do fim, o povo de Deus receberá um sinal distintivo para ser protegido contra as imensas destruições reservadas para os últimos momentos antes da volta de Jesus (Mateus 24:30, 31; 1Tessalonicenses 4:16-18).

Na Bíblia, Deus é o Senhor dos ventos (Amós 4:13). O Criador os utiliza para cumprir seus propósitos na Terra (Gênesis 8:1; Êxodo 10:13; 14:21). Ventos servem para destruir e proteger, trazer alimento (Números 11:31) ou a privação dele (Gênesis 41:6); nas mãos de Deus, o “vento abrasador” é um instrumento de juízo (Salmos 11:6; 48:7), como elemento desagregador (Salmos 18:42; 35:5). Na metáfora poética, Deus “cavalga um querubim”, voa “nas asas do vento” (Salmos 18:10; 104:3).

Porém, é nos textos dos Profetas que a imagem do vento assume um significado mais útil para a compreensão do símbolo apocalíptico. Vento se torna uma metáfora para a ação destruidora das nações que resulta na dispersão e no cativeiro (Jeremias 4:11-13; 18:17; 22:22; 49:32, 36; 51:1, 16; Ezequiel 5:2, 10; 13:11, 13; 17:21; Oseias 8:7; 12:1; 13:15; Hebreus 1:11). É tomado como símbolo apocalíptico em Daniel 7:1 a 8 e se apresenta com o mesmo significado no Apocalipse.

Na fase final da história humana, a Divindade atua para conter os impulsos violentos das nações. O livro de Daniel nos dá um vislumbre da ação dos mensageiros divinos junto aos governantes humanos – “o príncipe do reino da Pérsia me resistiu por vinte e um dias; porém Miguel, um dos primeiros príncipes, veio para ajudar-me, e eu obtive vitória sobre os reis da Pérsia” (Daniel 10:13). Os quatro anjos simbólicos de Apocalipse 7 representam a ação de anjos reais, sem desconsiderar a atividade imprescindível do Espírito Santo, simbolizada pelos “sete espíritos de Deus enviados por toda a terra” (Apocalipse 5:6; comparar com 1:4; 3:1; 4:5).

Consciência e ação
Para a escritora Ellen White, a mensagem apocalíptica dos quatro anjos segurando os quatro ventos tem implicações espirituais profundas quanto à consciência sobre o tempo em que vivemos, à condição espiritual de cada um e, especialmente, quanto à missão. Destaco a seguir algumas de suas mensagens sobre os quatro anjos e a contenção dos ventos:

1) “Os (…) ventos serão a incitação das nações para um combate fatal”, por parte de Satanás (Maranata, p. 173).

2) Apesar de a paz mundial se encontrar num estado de “incerteza”, com as nações “iradas” e fazendo “grandes preparativos de guerra”, “está ainda em vigor a ordem dada nos anjos, de segurarem os quatro ventos” (Maranata, p. 241).

3) Os acontecimentos são iminentes, apesar de ainda não ter chegado a hora da “batalha final” (Eventos Finais, p. 229).

4) Mesmo agora o “refreador Espírito de Deus está (…) sendo retirado do mundo. Furacões, tormentas, tempestades, incêndios e inundações, desastres em terra e mar, seguem-se um ao outro em rápida sequência” (Serviço Cristão, p. 52).

5) Tudo depende do fim da intercessão de Cristo no santuário celestial. Quando isso ocorrer, os anjos deixarão de segurar os ventos, e virão “as sete últimas pragas”, que são juízos divinos (Eventos Finais, p. 245).

6) Não há espaço para complacência. Devemos travar uma inevitável luta espiritual pela transformação do caráter (Testemunhos Seletos, v. 2, p. 217).

7) Agora é o momento de alcançar o mundo com a mensagem para este tempo (Testemunhos Seletos, v. 2, p. 374).

A paz entre as nações é apenas um verniz de civilidade e respeito mútuo. Se as paixões humanas pervertidas assumem o controle, toda a diplomacia desmorona. “Quando andarem dizendo: Paz e segurança, eis que lhes sobrevirá repentina destruição” (1 Tessalonicenses 5:3). Somente o Rei dos Reis pode impedir que nos destruamos uns aos outros. Ele refreia o ímpeto destrutivo das nações, para preservar a vida. Portanto, como Jesus disse, não precisamos viver “assustados”, pois as guerras são um dos sinais do fim, mas não o fim (Marcos 13:7).

De nossa parte, cabe orar “em favor dos reis e de todos os que se acham investidos de autoridade, para que vivamos vida tranquila e mansa, com toda piedade e respeito” (1 Timóteo 2:2). Precisamos ter consciência de que a paz e a liberdade religiosa são uma dádiva, a qual devemos ajudar a preservar, como os maiores pacifistas. O tempo de graça e liberdade que temos deve ser aproveitado ao máximo para salvar pessoas. Nos dias atuais, não podemos brincar de ser cristãos. Devemos levar a sério nossa identidade e missão.

Adaptação de texto de Diogo Cavalcanti (via Apocalipses)

Referências
[1] Ranko Stefanovic, Revelation of Jesus Christ. Berrien Springs, MI: Andrews University Press, 2ª ed., 2009, p. 259.

[2] Francis Nichol (ed.). Comentário Bíblico Adventista do Sétimo Dia. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, vol. 7, 2014, p. 864.

quinta-feira, 2 de setembro de 2021

Novas leituras

 A aproximação do início de mais um semestre traz a necessidade de conhecer matérias e novas leituras obrigatórias ou aconselhadas. 

Tenho dado por mim a ler obras que nunca me passariam pela cabeça ler, umas que são uma grata surpresa outras apenas uma surpresa e resolvi partilhar com quem passa por aqui as últimas três descobertas (para mim).

José Eduardo Agualusa nasceu na cidade do Huambo, Angola em 1960 e entre as várias obras escritas e premiadas, aqui está Nação Crioula. Este livro conta a história de um amor secreto: a misteriosa ligação entre o aventureiro português Carlos Fradique Mendes e Ana Olímpio Vaz de Caminha que tendo nascido escrava foi uma das pessoas mais ricas e poderosas de Angola.

Esta história com o nome do último navio negreiro que viajou de África para o Brasil.chega-nos através de cartas que Fradique escreveu ao longo de vinte anos dirigidas à sua madrinha Madame de Jouarre, ao seu amigo Eça de Queiroz e à mulher amada Ana Olímpia. 

Podemos considerar que este livro está dividido em duas partes - uma que é a correspondência de Fradique e outra que como sendo uma conclusão é uma carta de Ana Olímpio a Eça de Queiroz onde nos são dados a conhecer alguns detalhes que Fradique não menciona nas suas cartas, alguns deles porque ocorreram depois da sua morte. A escravatura e a colonização do Brasil são a par da história de amor e dela fazendo parte integrante, os temas das cartas escritas.

A dada altura, numa das cartas Fradique conta que ouviu um marinheiro cantar a letra de uma poesia de Castro Alves chamada Navio Negreiro que partilho aqui:

Senhor Deus dos desgraçados! 
Dizei-me vós, Senhor Deus! 
Se é loucura... se é verdade 
Tanto horror perante os céus?! 
Ó mar, por que não apagas 
Co'a esponja de tuas vagas 
De teu manto este borrão?
... Astros! noites! tempestades! 
Rolai das imensidades! 
Varrei os mares, tufão!



Mia Couto nasceu na Beira em Moçambique em 1955. Foi jornalista, professor, biólogo e escritor.

Esta obra consta de 12 contos onde nos são mostrados fragmentos curtos e profundos das vidas do povo moçambicano. Não sendo possível estabelecer preferências, porque não foram contadas para nós preferirmos ou "despreferirmos" tive uma preferida "A história dos aparecidos". 
Depois de umas cheias que levaram gentes e bens, dois homens que tinham sido levados pela corrente e supostamente tinham morrido, voltaram à aldeia. A confusão que a sua volta originou, está bem presente em todo o conto e passo a transcrever duas "falas" que nos mostram como as pessoas deixam de fazer parte de um grupo e quando voltam a sua reintegração, que neste caso deveria ser feliz é muito complicada e incómoda.
- Não interessa se morreram completamente. Se estão vivos ainda é pior. Era melhor terem aproveitado a água para morrerem-se.
E uma outra, onde depois de os aceitarem de volta, como fazendo parte do mundo dos vivos e como tal tendo direitos, os alertaram:
- Mas os dois aparecidos é bom serem avisados que não devem repetir essa saída da aldeia ou da vida ou seja lá de onde. Aplicamos a política de clemência, mas não iremos permitir a próxima vez.

Vou terminar com uma frase que está na contracapa do livro e nos diz: 

"O que mais dói na miséria é a ignorância que ela tem de si mesma".




Pepetela, pseudónimo de Artur Pestana, nasceu em Benguela, Angola em 1941.  Licenciado em Sociologia foi representante do MPLA e ajudou a criar o Centro de Estudos Angolanos.

Esta obra é constituida por 5 contos e mais não posso dizer porque tendo sido a que mais me custou encontrar para comprar, ainda não a li, mas tenciono fazê-lo brevemente.


segunda-feira, 30 de agosto de 2021

What's in my bag






Não vou mostrar o que tenho na minha mala pois acredito que não interesse a ninguém, mas vou comentar esta rubrica youtube, que é uma daquelas rubricas onde nada se aprende e serve apenas para confirmar suspeitas ou alimentar a curiosidade alheia e é das mais populares nos canais Youtube.

Costumamos traduzir esta rubrica como “O que está na minha mala” ou mais acertadamente “O que levo na minha mala” e que para ser 100% correto deveria ser “O que carrego na minha mala”. Senão vejamos:

Continuamente se apela aos pais que verifiquem as mochilas escolares dos seus filhos de forma a evitar que seja carregado peso em excesso. Os pais, por sua vez, apelam às escolas que permitam que os livros escolares fiquem nas escolas o que raramente tem resposta positiva porque os T.P.C. normalmente necessitam dos livros para apoio.

Mas já alguém se levantou contra o peso que as malas femininas normalmente carregam?

É um facto que todas as mulheres apreciam a sua bela mala. Umas mais que outras, claro. Umas que usam malas a combinar em cada detalhe com a roupa, outras que mudam de mala apenas em cada estação, outras que não mudam a não ser quando a mala pede reforma, mas tirando uma mulher que conheci e não usava mala (o que eu achava extraordinário!) todas gostam de usar, mesmo que não seja diariamente ou em todas as ocasiões.  E é assim que o problema se levanta, porque além dos básicos há toda uma parafernália de artigos que as malas das mulheres carregam.

Pessoalmente gosto de malas de tamanho médio/grande, que permitam acomodar e procurar sem aflição o seu conteúdo. Há básicos essenciais e também há aqueles extras que dependem do gosto de cada pessoa. O importante é que haja nas malas tudo que for preciso, mesmo que nunca seja preciso… é essa a ideia, não é?

Atualmente trabalho a uma distância de casa que me permite ir e vir a pé. Por isso comecei aos poucos a trocar as malas grandes por malas mais pequenas… E a coisa até estava bem encaminhada, pois usava uma mala pequena onde conseguia meter o básico essencial. Mas a saudade de uma mala grande bateu-me à porta e de tal forma que resolvi terminar de vez um saco em tecido que começara há uns cinco ou seis anos, colocar as asas que era o que faltava e um dia troquei a mala pequena por ele. Tudo cabia tão bem, tão à vontade que achei melhor acrescentar mais umas coisitas, os tais extras. Gostei muito do resultado, mas no primeiro dia que a usei concluí que havia motivo para ter abdicado das malas grandes neste meu percurso diário. Não preciso! O que poderei precisar não vou usar no caminho a pé para o trabalho ou para casa! E mais, não tenho energia para andar a carregar malas cheias!

Resolvi cortar o mal pela raiz. Troquei o saco por uma mala, ainda mais pequena do que as que usava ultimamente, adaptei o tamanho dos conteúdos básicos (carteira, bolsa de óculos) para caberem nesta mala e vim feliz e contente, como se costuma dizer. Leve com toda a certeza.

Esta opção durou apenas um dia, como a da mala grande. A mala é tão pequena que os essenciais não cabem todos e embora me tivesse sabido bem a quase liberdade, retomei a minha mala pequena de há uns meses a esta parte, mas ligeiramente maior.

E vocês? São meninas de malas grandes, pequenas ou não usam mala?...

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

Cozinha de novo...

 Já aqui frisei várias vezes que este não é um blogue de decoração e que há pouco tempo até tinha decidido que mudaria um pouco os contéudos, mas depois de uma visita rápida pelo blogue para matar saudades (quem nunca?) me dei conta de que a "minha cozinha" é uma rubrica que se repete amiúde. 

Não é de facto o meu sonho de cozinha, mas vou fazendo o que posso para a manter a meu gosto. Ainda tem algumas coisas por renovar, mas vai indo e era esse "vai indo" que gostaria de partilhar aqui e agora e não posso prometer que seja pela última vez.

Num prédio com cerca de 40 anos, numa altura em que o belo do azulejo quanto mais rebuscado no seu padrão mai'lindo, as cozinhas do prédio primam pela diversidade. São nove apartamentos e acho que se repetem de duas em duas cozinhas os padrões.

Para colmatar essa beleza comecei por mudar a cor dos armários que eram carvalho escuro e estavam com falta de verniz pintando-os de bege.

Não foi este bege o primeiro mas é para verem como ficava com os azulejos existentes.

Cansada do ar mortiço e deslavado um dia decidi pintar os armários de verde.
Gostei muito da cor e durante uns anos andou assim, mas porque os azulejos continuavam a não ajudar, há dois anos resolvi voltar ao bege (embora num tom mais claro). Uma semana depois de os ter pintado, tomei a decisão de que os azulejos também precisavam de ser pintados (finalmente).

Não me atrevi a pintar a área do fogão que é um canto porque tive receio do calor que ali se produz. A ideia é forrar a parede daquela área com algum tipo de placa resistente e lavável.

Com a pintura dos azulejos, arrependi-me de ter tirado a cor dos armários e este ano andei a inspirar-me no Pinterest e meti na cabeça que ia pintar os armários de azul. Não queria muito escuro, porque a cozinha não é muito grande e gosto de cor e escolhi, depois de muita escolha sem resultados uma tinta com acabamento brilhante que na amostra que me deram me parecia muito bem.


Gostei tanto que duas semanas depois raspei e lixei a tinta toda e na última semana de férias fiquei com uns armários quase novos e num tom de verde tão claro que em algumas das fotos que tirei e descartei pareciam brancos.



Parece quase uma cozinha nova e à noite quando as luzes estão acesas parece que tudo se ilumina.
Há coisas que se repetem em cada fase de cor de armários e eventualmente irão mudar (refiro-me aos pratos no cimo do armário), mas depois de uma semana com uma empreitada daquelas nem o resultado final me deu ânimo para refrescar a decoração.

Estou muito satisfeita e acredito que irá ficar assim, dessa cor, alguns anos...










quinta-feira, 15 de julho de 2021

Dom Quixote de La Mancha

 


A obra narra as aventuras e desventuras de Dom Quixote, um homem de meia idade que resolveu se tornar cavaleiro andante depois de ler muitos romances de cavalaria. Providenciando cavalo e armadura, resolve lutar para provar seu amor por Dulcineia de Toboso, uma mulher imaginária. Consegue também um escudeiro, Sancho Pança, que resolve acompanhá-lo, acreditando que será recompensado.

Quixote mistura fantasia e realidade, se comportando como se estivesse em um romance de cavalaria. Transforma obstáculos banais (como moinhos de vento ou ovelhas) em gigantes e exércitos de inimigos.

É derrotado e espancado inúmeras vezes, sendo batizado de "Cavaleiro da Fraca Figura", mas sempre se recupera e insiste nos seus objetivos.

Só volta para casa quando é vencido em batalha por outro cavaleiro e forçado a abandonar a cavalaria. Longe da estrada, fica doente e acaba morrendo. Nos seus momentos finais, recupera a consciência e pede perdão aos seus amigos e familiares.

Este foi mais uma das obras que nunca tinha lido (infelizmente) e foi uma grata surpresa.

Escrito numa altura em que o Modernismo estava a assentar raízes foi uma crítica à crítica que se fazia aos romances de cavalaria que se diziam não serem bons para a mente e fazerem com que os seus leitores tivessem os interesses literários mal encaminhados.

Só para complemento deixo aqui a transcrição de uma parte de um comentário feito dentro de uma análise da obra em questão:

Na época medieval existiram narrativas denominadas romances de cavalaria, em que o termo ‘romance’ não tem que ver com o do século XIX, nem com o actual. O uso desse termo deriva do facto de as narrativas serem escritas em romance, ou seja, em línguas românicas, vernáculas, e não em latim.

O Romance, tal como o entendemos hoje, é um sub-género literário que pertence ao género Narrativa e que nasceu em finais dos século XVIII.

Por isso é que a obra de Cervantes é o início de uma nova modernidade: anuncia, avant la lettre, o futuro Romance e subverte, por vários motivos e em vários planos, as narrativas medievais, os denominados romances de cavalaria.

quinta-feira, 17 de junho de 2021

O Monte dos Vendavais

 

O Monte dos Vendavais é uma das grandes obras-primas da literatura inglesa. Único romance escrito por Emily Brontë, é a narrativa poderosa e tragicamente bela da paixão de Heathcliff e Catherine Earnshaw, de um amor tempestuoso e quase demoníaco que acabará por afectar as vidas de todos aqueles que os rodeiam como uma maldição. Adoptado em criança pelo patriarca da família Earnshaw, o senhor do Monte dos Vendavais, Heathcliff é ostracizado por Hindley, o filho legítimo, e levado a acreditar que Catherine, a irmã dele, não corresponde à intensidade dos seus sentimentos. Abandona assim o Monte dos Vendavais para regressar anos mais tarde disposto a levar a cabo a mais tenebrosa vingança. Magistral na construção da trama narrativa, na singularidade e força das personagens, na grandeza poética da sua visão, nodoso e agreste como a raiz da urze que cobre as charnecas de Yorkshire, O Monte dos Vendavais reveste-se da intemporalidade inerente à grande literatura.


Neste meu percurso que fez com que lesse livros que em outra altura não iria ler, este foi mais um deles, de entre muitos. É um daqueles clássicos que toda a gente deve ler ou já deve ter lido.

Mas que eu apenas li agora com mais de meio século de vida, porque foi livro que nunca me chamou, não é o meu género de leitura preferido, mas embora não pense voltar a ler, devo dizer que é muito bom. Toda a trama está magistralmente apresentada e os personagens são tão "reais" que cheguei a odiar alguns deles.

Partilho a análise à obra, aproveitando para dizer que é de facto, a forma como a autora nos apresenta cada personagem que nos provoca as emoções que nos levam a amar ou a odiar essa personagem, como se estivessemos em algum momento a confrontá-la ou a ser confrontados por ela. É essa mestria que dá a certas obras, esta incluída, o nome de obra-prima.

Publicado em 1847 sob o pseudonimo de Ellis Bell Wuthering Heights é uma obra  prima da literatura inglesa que na altura em que foi escrita, dada a violencia e a paixão narrada levou a que os críticos acreditassem que tinha de facto sido escrito por um homem, em especial porque foi escrita numa altura em que as mulheres não tinham voz, ou não deveriam ter, pelo menos. Emily Bronte ultrapassou esse fato e até nos mostrou o papel das mulheres da época e uma crítica a esse papel, através das personagens femininas e do seu papel na narrativa.

Foi o único livro escrito pela autora Emily Bronte que pareceu transcrever para os cenários da sua obra, a atmosfera do lugar onde vivia.

Estamos perante uma narrativa polifónica que nos é apresentada por dois narradores-personagens. O primeiro que inicia a narração é Lockwood, inquilino de Heathcliff, na Granja de Trushcross, que por sua vez nos apresenta Helen Dean, a sua governanta, sendo através desta que tomamos conhecimento do que aconteceu 18 anos antes.

A autora cria personagens de carater forte e destemido, onde a paixão e o desejo de vingança andam de mãos dadas. Heathcliff uma das duas personagens principais, cresce maltratado pelo irmão adotivo sem se manifestar contra os abusos, como se o relacionamento com Catherine fosse uma compensação para todos os maus tratos que servirão de justificação para, anos mais tarde se vingar, de alguma maneira, de todas as pessoas com quem, por algum motivo, se cruzou. Hindley porque o maltratava, recebeu a vingança post mortem na pessoa do seu único filho que foi criado por Heathcliff como um escravo;  Edgar porque casou com Catherine, recebeu a vingança na pessoa da filha de ambos quando Heathcliff arranjou para que ela se casasse com o primo, seu filho e de Isabella a quem desposara para magoar Catherine; e a própria Catherine a quem desejou que nunca descansasse, nem depois de morta, enquanto ele fosse vivo.

                - Oxalá acorde em tormento! – gritou com assustadora veemência, batendo o pé e gemendo    num inesperado paroxismo de incontrolável paixão – Foi mentirosa até ao fim! Onde está     ela?... Catherine Earnshaw que não descanses enquanto eu viver!

A continuação do desabafo, diz-nos que o desejo de vingança é apenas por amor e pela dor por ter ficado só,  pois não suporta viver sem ela. Se alguma dúvida houvesse que de que as ações de Heathcliff têm como razão o amor que sente por Catherine, seja ele doce ou amargo, ficavam clarificadas.

                - Fica sempre comigo, toma qualquer forma, enloquece-me, mas não me deixes neste abismo onde não te posso encontrar! Oh, Deus, é indízivel! Eu não posso viver sem a minha                vida! Eu não posso viver sem a minha alma!

Conseguimos perceber ao longo da narrativa que Helen Dean, ou Nelly como Catherine lhe chamava, é a única pessoa que cresce a par e ao lado de todos os personagens e contra quem Heathcliff não tem qualquer ato de vingança, já que ela é a pessoa que serve de ligação entre ele e uns e outros.

Esta obra tem todas as carateristicas do período romântico, em que as emoções e a instrospeção guiam o individuo que sente e pensa no que sente. A riquísima linguagem e a narrativa complexa a par das personagens, leva-nos para dentro da narrativa e sentimos que embora sendo personagens mais do que secundárias, já que não afetamos nenhuma parte da narrativa, o que lhes toca toca-nos a nós e acabamos por fazer parte do local e do tempo e sofrer com as personagens alguns dos seus sofrimentos.


quarta-feira, 16 de junho de 2021

A Costa dos Múrmurios

 

Nesta obra a "voz e o olhar responsável pela narração do sucedido" pertence a Eva Lopo que ao longo da narrativa vai desenvolver e até alterar parte do que é contado na primeira parte da obra. Digo "contado", porque se trata de um conto, uma narrativa curta com um título e a palavra fim no final. Este conto é como uma introdução ao que será desenvolvido mais tarde, quando Eva recorda o que se passou nessa altura.

O cenário da ação é Moçambique na cidade da Beira, pelos anos sessenta, realçando o hotel Stella Maris num complemento à presença das famílias dos oficiais, mulheres e filhos, que os tinham acompanhado na deslocação para Moçambique para a guerra, para serem um desdobramento da ideia de família que o regime queria manter e incentivava como apoio e defensora da moral. 

Os personagens principais são Eva e Helena. O marido de Eva o alferes Luís Alex e o capitão Jaime Forza Leal e o jornalista Álvaro com quem Eva terá uma espécie de relacionamento. não são personagens principais no entanto é por conta delas que algumas das situações se desenrolam e servem para reforçar o inconformismo da personagem principal.

Eva Lopo mostra-se como uma mulher inconformada com a vida de esposa de oficial de guerra e questiona quantos a rodeiam sobre a necessidade de se fazer mais e melhor, mas não aquilo que se faz. Não se considera parte daquele mundo, mas em algumas situações conforma-se com ele; Helena é uma mulher que "aprendeu" pela força a ser submissa à vontade de um marido déspota e abusador; O capitão Jaime Forza Leal é o protótipo dos homens que naquela época eram os reis da casa e queriam ser os reis do mundo, à custa da individualidade e do respeito de todos os que o rodeavam; o alferes Luís Alex, embora fosse um homem da mesma época era mais contido nos seus desejos de mandar na mulher, respeitando-a, mas por vezes deixava transparecer o desejo de ser como o capitão a quem idolatrava.

A maior diferença entre as duas obras a apreço, além das famílias existentes n' A Costa dos Múrmurios e nunca em Os Cús de Judas prende-se com o facto de que António Lobo Antunes a anos e quilómetros da guerra nos transporta diretamente para o espaço de guerra, para os traumas e os dias dos soldados e de todos quantos estiveram envolvidos nela e, Lídia Jorge nos põe às portas da guerra, nos anos da guerra e mostra-nos, através de Eva, a vida dos que estavam fora do teatro de guerra, vivendo as suas próprias guerras, enqquanto esperavam os que iam à guerra.

Podemos ver uma semelhança entre as duas obras na espécie de diálogo existentes numa e noutra. Em Os Cús de Judas o narrador-personagem fala com alguém que sabemos que o ouve e que por vezes lhe responde (sabemos isto pelas próprias palavras dele) e em A Costa dos Múrmurios a narradora-personagem está a falar com alguém, que é o autor do conto da primeira parte da obra, desenvolvendo ou contrariando ideias antes expostas. Neste caso o diálogo faz-se a partir do conto como questões e da narrativa do romance como respostas.

Concluo com uma pequena análise ao título que nos diz que os vozes altas, que se deveriam fazer ouvir contra a guerra, contra as situações que se viviam, contra a estadias das famílias não eram mais do que múrmurios que mal se ouviam. Eram as queixas dos que viviam as situações, dos que as viam ser vividas por outros e era ao mesmo tempo os múrmurios dos que na pátria, não se revoltavam contra a guerra colonial e se calavam.

Nota: Fiz uma pequena comparação entre as duas obras porque as duas fizeram parte de um contexto que me obrigou a lê-las. Não são livros que volte a ler, mas foram uma mais valia para percebermos a literatura pós-guerra colonial.

quinta-feira, 8 de abril de 2021

Os Cus de Judas

Nunca tinha lido António Lobo Antunes, até hà duas semanas quando precisei de ler Os Cus de Judas por conta de um trabalho de Literatura e Cultura Portuguesa. E ainda não sei se fiquei fã do tipo de escrita do autor, mas fiquei de boca aberta...E passo de imediato a resumir o que li.


            Quando se inicia a leitura desta obra e se nunca se leu nada deste autor, estranha-se a forma como a escrita é apresentada, como se um excesso de adjetivos e substantivos que não fazem parte do assunto ou das frases apresentadas, fossem escolhidos com a intenção de nos assoberbar de informação e nos dificultar o entendimento da mensagem, como se ela não fosse para nós entendermos, mas para catarse do autor. Com a continuação da leitura, como se nos habituássemos a esses excessos, começamos a dar-nos conta da riqueza de vocabulário e da forma inteligente como ele é incluído em determinadas partes do texto, como se não lhes pertencesse, mas necessário para afinal entendermos o que o autor nos quer dizer e sentíssemos um pouco aquilo que ele próprio sente. Sendo o sujeito da enunciação o autor da obra, é a personagem principal que nos fala e nos conta as suas experiências, obsessões e saudades da guerra, da infância, da sua vida no meio de tudo isso. Este falar sucede muitos anos após a guerra, como se passado todo aquele tempo, ainda houvesse necessidade ou só agora houvesse coragem para desabafar, para esquecer sem querer esquecer pois relembra cada situação vivida. Uma vez que a fala do interlocutor, ou seja, da “mulher naquele encontro de uma noite” não acontece e só supomos que “ela fala” quando o narrador-personagem responde a uma pergunta dela repetindo a pergunta, podemos imaginar que em algum ponto somos nós, os leitores, essa mulher e que a narrativa das memórias e do sentir atual é para nós que o lemos.

                Existe ao longo de toda a narrativa o contar de uma ação que decorre entre diferentes níveis temporais que se intercalam e se misturam. Como se a infância de que sente saudade, a guerra, ou as memórias da guerra de que quer “lavar-se” e a sua vida atual, fizessem parte do seu todo e como um todo não podem ser separados, nem em tempos de narrativa.

                Os espaços de maior relevo na narrativa são os espaços (Os Cus de Judas) onde a guerra foi vivenciada pelo narrador-personagem. O pouco tempo que se transformou em muito, pela brutalidade da experiência, vai ocupar todo o seu ser ou estar futuro e por isso sempre presente na narrativa, seja como memória pura, seja como comparação com infância e atualidade e vai ocupar a maior parte do espaço, onde são as mulheres “a” personagem que mais se destaca na narrativa. As mulheres da sua infância, as mulheres da altura da guerra e as mulheres que já fizeram e agora não fazem parte da sua vida atual.

                Ao longo desta narrativa podemos ter acesso, através das memórias do narrador-personagem, a diferentes Áfricas e a forma como ele lida com elas. A grandeza e beleza do espaço natural que o impressiona e deslumbra; a tristeza do espaço colonizado, desrespeitado e o espaço de guerra. Uma guerra sem razão, sem fundamento lícito, como se a guerra necessitasse de um fundamento lícito para ser mais correta e justificada e como espaço de sofrimento e desespero e momentos de tédio para os que lá estão a morrer, a lutar e a esperar.

                Podemos ver nesta obra que embora afastado de parte do que o fez sofrer, o narrador-personagem vive cada sofrimento como se ele ainda estivesse vivo e a queimar. Cada ponto que recorda é um ponto que o pode ainda magoar, porque a guerra o transformou, não em insensível, mas em alguém que sente mais ainda, pois ao relembrar é como se vivenciasse, de novo, cada memória. Não só pelas memórias que não se desvanecem e ainda magoam, o tipo de experiências que o narrador viveu em que a morte era mais “quando” ou “como” do que “se”, esculpem uma vida em que nada que se viva no presente tem comparação ou até importância se comparado com elas.

                A posição ideológica que transpira desta narrativa é de anticolonialismo, pela destruição psicológica e física que os colonizados e terras colonizadas sofreram e antiguerra colonial, como uma guerra sem motivo e que apenas serviu. segundo o autor, “para manter cheios os bolsos de algumas poucas, famílias que apoiavam o regime da altura”.